terça-feira, maio 30, 2006

Copa x Trabalho

Agora, em época de Copa do Mundo, instala-se no seio da sociedade a velha polêmica: afinal, as instituições capitalistas e sociais devem interromper seu funcionamento, liberar seus funcionários para audiência aos jogos do Brasil?

Se estivessem investidos do poder necessário para impedir o êxodo de seus subalternos às TVs espalhadas pelas cidades, certamente não haveria polêmica; os empresários simplesmente fariam uso desse poder para manter os trabalhadores atrelados ao aparelho produtivo. Por analogia, o mesmo seria feito nas instituições sociais.

Como não há possibilidade da imposição compulsória de vilipêndio aos jogos do Brasil, a solução para que se mantenha o aparato de produção em funcionamento se esvai para o plano ideológico, de modo que seja sedimentada nas mentes dos empregados que é correto impedi-los de prestar assistência às partidas da Seleção, do mesmo modo que é feito quando da exigência de que um trabalhador abdique de seu descanso semanal em prol de prazos e exigências, laborando num domingo sem receber remuneração compensatória por seu sacrifício e boa vontade.

Os trabalhadores já são por demais explorados pelo sistema à eles imposto, suas necessidades são o combustível que queima nos motores do capitalismo, e o capitalismo se encarrega de manter tais necessidades sempre pendentes, como sustentáculo de sua existência nesse corte selvagem que foi implementado e é, por seus controladores, desenvolvido.

O que são as empresas sem os trabalhadores, senão meros amontoados de concreto e metal? O que move o funcionamento das coisas senão as pessoas? Pois os senhores do capital promovem verdadeira faxina mental em seus empregados, levando-os a crer que eles são prescindíveis. Não é verdade, por uma simples razão: as coisas de criação humana ao homem pertencem, não o contrário. Todo o sistema é criação do homem, está a seu serviço para prover-lhe bem estar. Não é o homem a ser tomado como propriedade do abstrato leviatã do sistema. Entretanto, a ordem das coisas, por artificialismo ideológico fomentado ao longo de gerações e séculos, foi invertida e tornou sem limite o acumulo de capital, propriedade e disposição de vidas travestidas em mão-de-obra mal remunerada.
Diante disso, me parece claro qual a resposta na polêmica: simplesmente o ponto facultativo, aqueles que desejarem assistir aos jogos na suas casas, em companhia de seus filhos estão livres para fazê-lo; aqueles que crêem na força inquebrantável do comprometimento assumido com seu labor, que trabalhem normalmente. O que não é justo é que se escamoteie essa liberdade de escolha nas sombras de uma discussão cuja ideologia é fátua.


Cygnus

Um comentário:

Anônimo disse...

Brasil do futebol e Carnaval, nada a declarar... O que se diz respeito, em certo ou errado! Cada um cada um!