terça-feira, maio 30, 2006

Contagem Regressiva para a Copa do Mundo

Sair do emprego trará de imediato uma vantagem: poderei assistir a Copa do Mundo quase na íntegra; assim sendo, inauguro hoje uma série de postagens sobre os jogos do Mundial dando destaque às principais equipes. Obviamente o Brasil merecerá de minha parte, atenção especial.

Infelizmente a época de Copa, afora as partidas, é bem irritante, com todo esse ufanismo besta, esse afã de saber quantos quilos o Nazário esta pesando, qual a cor da cueca de Ronaldo Assis, enfim, as fofocas sem importância. Acima de tudo, o pior dos suplícios será ter de se submeter ao chatíssimo Galvão Bueno, o mala-mor do Brasil durante a Copa, superando até mesmo Lula e seu séqüito de vilões ou Júlia Assunção.

Hoje a seleção brasileira fez o primeiro amistoso preparatório antes do início do Mundial, contra o inexpressivo time suíço do Lucerna. Apesar da fragilidade do adversário, o escrete canarinho cumpriu a demanda mínima que lhe era imposta: aplicou retumbante goleada sobre o adversário ao natural.

O que se pôde concluir sobre esse jogo afinal? A primeira coisa que chamou a atenção foi que, mesmo com poucos dias de treinamento, a equipe já adquiriu contornos de entrosamento e espírito coletivo. Nitidamente evitando desgaste desnecessário, fez a bola rolar com consciência e qualidade, errando poucos passes e articulando com objetividade. Kaká já deu mostras de que poderá ser um grande destaque, movimentando-se por todos os setores do ataque, chegando de trás, armando, concluindo, entregando-se com abnegação às tarefas de contenção na saída de bola adversária, enfim, um refinado armador ofensivo. Particularmente, faz-se mister salientar o quão interessante foram as alternâncias de posicionamento entre ele e Ronaldo Assis, o que certamente dificultará a marcação adversária na Copa. As ultrapassagens em velocidade dos alas também assomam-se como importante recurso à ser explorado pelo selecionado de Parreira. No mais, o restante do time se portou a contento, Adriano e Ronaldo Nazário fizeram gols, Lúcio chegou duas ou três vezes ao ataque como elemento surpresa, Ronaldo Assis não brilhou mas deu assistências precisas, Zé Roberto juntando-se ao ataque articulou com qualidade e Emerson, quando exigido, saiu-se bem nos labores defensivos e no primeiro passa ao ataque.

Se ofensivamente a seleção não demonstra dificuldades, defensivamente problemas foram detectados, principalmente no meio-campo, que diversas vezes foi ocupado por jogadores de azul sem nenhum brasileiro nas cercanias. Isso fez com que a equipe suíça tenha partido algumas vezes ao ataque com certo perigo, inclusive criando duas chances claras de gol, uma em cada tempo, que só pararam em Dida. Acredito que Parreira deveria revisar sua convicção em manter o “quadrado mágico” (utilizando a exagerada expressão midiática) em prol de uma escalação de maior equilíbrio e consistência em todos os setores. Juninho Pernambucano muniu-se de credenciais para ser titular, tanto pela atuação de hoje, quanto pelo futebol eficiente e objetivo que vem demonstrando ao longo de suas temporadas européias. A questão é: quem poderia sair para que sua entrada fosse promovida? Não Emerson, Kaká muito menos. Falar em prescindir de Ronaldo Assis, indubitavelmente o melhor do mundo, é heresia. Resta Zé Roberto. Mas destarte continuaria sem solução o desequilíbrio do setor. Talvez a solução fosse retirar um dos dois atacantes, Ronaldo ou Adriano, adiantar Ronaldo Assis e formar um quadrado de meio campo com Emérson, Zé Roberto, Kaká e Juninho, com Ronaldo Assis como quinto homem e segundo atacante (o famoso “1” de Zagallo, instaurando uma espécie de 4-4-1-1). Desse modo, devido à necessidade em marcar-se Ronaldo Assis de cima e não descuidar de qualquer um dos centroavantes que estejam em campo, abririam-se espaços para os avanços de Kaka e, alternadamente, Juninho e Zé Roberto, bem como daria liberdade para os avanços em velocidade dos alas. Ainda, não nasceu defensor capaz de anular de todo jogadores da cepa de Ronaldo Assis, por mais esforço que o certamente malfadado beque imprima.
Tudo são apenas confabulações; Parreira está irredutível em sua escalação inicial e ela não é, absolutamente, equivocada em teoria. Espera-se, contudo, que o poder ofensivo de jogadores desse quilate seja capaz de anular quaisquer problemas que o sistema defensivo porventura venha a enfrentar. Mas os augúrios para a seleção Brasileira são decerto dos mais rutilantes.


Cygnus

Copa x Trabalho

Agora, em época de Copa do Mundo, instala-se no seio da sociedade a velha polêmica: afinal, as instituições capitalistas e sociais devem interromper seu funcionamento, liberar seus funcionários para audiência aos jogos do Brasil?

Se estivessem investidos do poder necessário para impedir o êxodo de seus subalternos às TVs espalhadas pelas cidades, certamente não haveria polêmica; os empresários simplesmente fariam uso desse poder para manter os trabalhadores atrelados ao aparelho produtivo. Por analogia, o mesmo seria feito nas instituições sociais.

Como não há possibilidade da imposição compulsória de vilipêndio aos jogos do Brasil, a solução para que se mantenha o aparato de produção em funcionamento se esvai para o plano ideológico, de modo que seja sedimentada nas mentes dos empregados que é correto impedi-los de prestar assistência às partidas da Seleção, do mesmo modo que é feito quando da exigência de que um trabalhador abdique de seu descanso semanal em prol de prazos e exigências, laborando num domingo sem receber remuneração compensatória por seu sacrifício e boa vontade.

Os trabalhadores já são por demais explorados pelo sistema à eles imposto, suas necessidades são o combustível que queima nos motores do capitalismo, e o capitalismo se encarrega de manter tais necessidades sempre pendentes, como sustentáculo de sua existência nesse corte selvagem que foi implementado e é, por seus controladores, desenvolvido.

O que são as empresas sem os trabalhadores, senão meros amontoados de concreto e metal? O que move o funcionamento das coisas senão as pessoas? Pois os senhores do capital promovem verdadeira faxina mental em seus empregados, levando-os a crer que eles são prescindíveis. Não é verdade, por uma simples razão: as coisas de criação humana ao homem pertencem, não o contrário. Todo o sistema é criação do homem, está a seu serviço para prover-lhe bem estar. Não é o homem a ser tomado como propriedade do abstrato leviatã do sistema. Entretanto, a ordem das coisas, por artificialismo ideológico fomentado ao longo de gerações e séculos, foi invertida e tornou sem limite o acumulo de capital, propriedade e disposição de vidas travestidas em mão-de-obra mal remunerada.
Diante disso, me parece claro qual a resposta na polêmica: simplesmente o ponto facultativo, aqueles que desejarem assistir aos jogos na suas casas, em companhia de seus filhos estão livres para fazê-lo; aqueles que crêem na força inquebrantável do comprometimento assumido com seu labor, que trabalhem normalmente. O que não é justo é que se escamoteie essa liberdade de escolha nas sombras de uma discussão cuja ideologia é fátua.


Cygnus

segunda-feira, maio 22, 2006

Dolorosa derrota! :-(

Sad Monday... :-(

Confesso a vós que a derrota do Internacional, sábado, no Beira-Rio, ainda não foi digerida. Permaneço ainda ruminando o resultado, os ecos da trágica goleada teimosamente voltando à superfície dos sentimentos. O que, afinal de contas, teria acontecido ao Internacional?

Antes que alguém indique o que parece óbvio, o time mais qualificado entrando com soberba para enfrentar o de menos recursos técnicos, o famoso “salto-alto”, desde já afirmo que esse erro psicológico, tão comum no futebol, inexistiu. O resultado deu-se mais por méritos do Figueirense do que deméritos do Internacional, malgrado esses tenham ocorrido e contribuído para decretar o assombroso escore final.

Comecemos então pelos méritos da equipe catarinense: defesa sólida em todos os setores, contendo os avanços do Inter pelas alas e engessando a articulação de meio-campo da equipe gaúcha; sentimento coletivo, o que se mostrou pela excelente distribuição da equipe em campo; marcação implacável e incansável; compactação robusta em seu campo de defesa aliada a saídas velocíssimas em contra-ataque, chegando à frente por vezes com quatro ou cinco jogadores; inacreditável aproveitamento ofensivo; a habilidade de Soares e Schwenk, já sagrados como gratas revelações desse Campeonato Brasileiro que já deixa de ser incipiente.

E os deméritos do Internacional? Eis aí um mister difícil de se definir, afinal Abel Braga optou por uma escalação equilibrada em seu sistema tático favorito, o 4-4-2. A única ausência questionável foi a de Índio, mas o treinador do Inter preferiu contar com o entrosamento entre Bolívar e Fabiano Eller, bem como valorizar o lateral Ceará, cuja posição de ofício e pela qual ele está no Internacional é justamente a ala. Era isso ou repetir o 3-5-2, de magníficos resultados, tanto de escore como de mecânica de jogo, contra o São Paulo. Pois a única diferença nos dois times foi a abdicação de mais um zagueiro para a entrada de Fernandão no meio-campo. Em teoria a escolha de Abel me pareceu acertada, afinal Ceará não oferece a mesma capacidade que Elder Granja no apoio ao ataque e Fernandão aliado à boa fase de Alex decerto garantiria qualidade criativa ao meio-campo do Inter. Resguardando a defesa continuava a dupla de volantes Fabinho e Edinho e, no ataque, Rafael Sobis e Renteria, seguramente a melhor opção ofensiva atualmente no Inter. E, realmente, o ataque funcionou a contento, marcando dois gols e finalizando outras tantas vezes, contra uma defesa robusta. Fernandão chegando de trás conseguiu, enfim, exercer sua capacidade de finalização, tanto de cabeça quanto com os pés e, embora sua participação na articulação não tenha sido das mais brilhantes, aquém da expectativa que se tinha, ele foi capaz de trocar passes com qualidade e inteligência. Destarte, conclui-se que o que levou à derrota, humilhante em seu escore e no que foi visto no jogo, foi a defesa, desde muito mostrando-se como o setor mais sensível e deficiente do time. O jogo aéreo novamente foi problema crônico e, no chão, tanto Eller quanto Bolívar estavam perdidos, mal posicionados e em jornada extremamente negativa. Bolívar, principalmente, mostrou-se reiteradas vezes desatento e inseguro. Soma-se à má jornada da zaga a deficiente proteção á defesa, Edinho mal, Fabinho também em dia nefasto, e tem-se a resposta que se procurava para explicar a derrota. Como faltou apuro tático defensivo ao Inter no sábado! Reiteradas vezes ambos volantes subiam ao ataque, perdiam a bola e deixavam a defesa em maus lençóis pelo meio. Nas alas, o mesmo problema se repetiu, com partidas simultâneas de Ceará e Jorge Wagner (novamente jogando bem, mas não tanto como nas últimas partidas). Assim sobravam espaços para que a equipe de Adílson Batista jogasse com liberdade e velocidade no campo do Inter, marcando quatro tentos e perdendo mais duas chances claríssimas de gol, que por milagre não foram convertidos.

Concretizou-se novamente a tradicional maldição que recaí sobre o Internacional sempre que este tem a chance de chegar à liderança. Também reavivou-se a tradição de dificuldades contra os coadjuvantes do campeonato. Espero que as lições dessa derrota tenham sido assimiladas e que os jogadores não mais permitam que tragédias semelhantes aconteçam novamente.

Cygnus

sábado, maio 13, 2006

ARS MUSICA I

Consoante a proposta do blog em apresentar discos de todo exilados das sendas mainstream, inauguro uma série de postagens sobre discos essenciais para que se ampliem os horizontes da compreensão musical, através de obras cujo ethos seja, primordialmente, a arte e a capacidade de induzir estados de letargia onírica no apreciador.

Isto posto, falemos agora dessa portentosa obra que trago a vós, meus áticos leitores: o magnífico Ash Ra Tempel, debut da homônima banda teutônica. Cá estou eu delirante ante a audição desse disco, cavilando de que modo seria possível transpor para o terreno das palavras a sensação provocada pela sonoridade do álbum em tela. Pois bem, tentarei pelo viés menos racional, sendo espontâneo, malgrado o texto perca em riqueza literária.

Pois então, de que se trata o mírifico álbum? Basicamente de uma sucessão de soundscapes alucinógenas, uma alquimia vertiginosa entre guitarras psicodélicas, improvisações avant jazz e sintetizadores em modulações ambient space. São tão somente duas canções: Amboss e Traummaschine, ambas de longa duração, abrindo espaço para toda sorte de experimentalismos e policromias sônicas que desejassem os músicos levar a efeito. Alicerçadas em cadências mesmerizantes de progressão dramática e intensidade infrenes, as canções são pontuadas por explosivas emanações de guitarra, densas e arrebatadoras, drones sólidos e esmagadores, em contraste com momentos diáfanos de minimalismo plácido e cativante. Ainda, o silêncio se faz presente nos mais oportunos momentos, graças à perspicácia dos músicos em manter os rumos tomados pelas canções em constante suspense. Ambas as músicas se contrapõe ao mesmo tempo em que se complementam: enquanto Amboss funciona - com sua construção iniciada em uma espécie de bruma lisérgica e plácida remetida de maneira vigorosa e constante rumo a um apogeu freakout de guitarras tonitruantes e petardos percussivos – como uma espécie de introdução ao multiverso sônico instaurado pelos alemães, Traummaschine é o réquiem, tomando como início o final de Amboss e gradualmente tornando-se trovejante; esvaindo-se então numa placidez etérea e hipnotizante.


Insomma, um disco digno de levar o epíteto de genial!

Cygnus

quinta-feira, maio 11, 2006

Derrota nos Andes, pero bons augúrios para a volta!

Enfim finda a invencibilidade do Internacional, vergada nos Andes, no topo da América. Mas sobram motivos para enaltecer tanto resultado quanto atuação.

Já era previsto que o Colorado enfrentaria insofismáveis difculdades, advindas das circunstâncias: jogo decisivo, na casa do adversário, a pressão da torcida, a altitude. Somam-se às dificuldades das circunstâncias a propagada qualidade do elenco adversário e então equacionam-se as dimensões do desafio que se assomava ao Inter.

Inicia o jogo, erros de passe de lado à lado, a LDU inquieta, o Inter buscando adaptar-se à bola, ao adversário. E o time da casa iniciou na pressão, na tentativa do abafa. Até os cinco minutos apenas o adversário jogou, mas sem efetividade. Após esse período, o Inter equilibrou as ações. Controlando o meio campo, segurava as investidas centrais, anulando o meia Palacios. Sobrava para a LDU explorar os lados do campo e aí apareceu o caminho para a vitória. O lado esquerdo restou descoberto durante toda a partida, foi problema crônico ao longo do jogo e por ali ocorreram as investidas mais perigosas do time equatoriano, incluindo-se os gols. Jorge Wagner teve uma atuação soberba, apoiando e auxiliando na articulação das jogadas, mas o preço por essa atuação foi a perda de poder defensivo pela esquerda. As correções de Abel, de intenção acertada, não surtiram efeito, pela falta de qualidade de Rubens Cardoso, que durante sua estada em campo, quando não mal posicionado, foi completamente envolvido pelo hábil ala direito equatoriano.

Porém, foi o Inter quem abriu o placar, com belo gol de Jorge Wagner chutando da entrada da área. Em seguida, mais dois tentos foram impedidos por sensacionais defesas do arqueiro equatoriano. A LDU ameaçou em diversas ocasiões, vencendo reiteradas vezes a zaga colorada pelo alto. Entretanto, mesmo assim, a zaga mostrou-se valorosa e segura; era humanamente impossível afastar todas as bolas que foram alçadas para área, e no combate terrestre, mostrou-se soberana. Erros de posicionamento na jogada aérea, contudo, devem ser corrigidos.

Veio o segundo tempo e, até os 20 minutos, o Inter continuou absoluto em campo, controlando as investidas da LDU, trocando passes com inteligência e ameaçando, embora com menos ímpeto, o gol adversário. Quando o placar foi igualado, aos 12 minutos, nem assim o Inter esmoreceu em sua postura tática. Abel, percebendo o problema crônico pelas laterais, sacou Perdigão e Alex, de satisfatórias atuações, e promoveu as entradas de Ceará e Rubens Cardoso, a fim de fortalecer a marcação pelos lados do campo. Para recompor o setor central, rearranjou Jorge Wagner e Elder Granja para lá. Infelizmente, tal medida, pelo lado esquerdo, mostrou-se inócua, malgrado os avanços da LDU pela direita tenham sido contidos. Rubens Cardoso entrou mal, não soube colocar-se com inteligência em campo e, no combate direto, acabou sempre envolvido.

Após esse período, a altitude entrou em campo e fez-se sentir pelos jogadores. Para racionar o fôlego, o time compactou-se em seu campo, encurtando os espaços a serem percorridos e diminuindo a distância para as trocas de passes. Com metade do campo à disposição para arrumar-se para o ataque, a LDU partiu com tudo para cima, adonando-se do jogo e levando perigo. Entretanto, ainda assim, a defesa mostrou-se sólida, antecipando-se às jogadas e levando a efeito um ou outro contra ataque. A entrada de Rentería no lugar de Fernandão - novamente em má jornada, excruciado pela posição em que está escalado e que não é sua - deu sobrevida ao setor ofensivo, apesar de ser um guerreiro solitário ante os zagueiros equatorianos. Melhor seria promover sua entrada no lugar de Michel, deixando Renteria e Fernandão próximos.

Aos 39, enfim, a abnegação da LDU foi recompensada. Em jogada rápida pela esquerda, o ala Reasco entrou livre e cruzou para o centro da pequena área onde encontrou o avante Graziani que apenas escorou, com o peito, para as redes. Decretava-se o escore final.

Considerações: o Internacional, pelas conjunturas, realizou excelente partida, apesar da derrota. Jogando fora de casa, com um adversário qualificado, segurou a pressão (apesar dos dois gols), marcou o seu, que deu-lhe grande vantagem para a partida de volta, e foi superior a LDU em grande parte do tempo. O time todo esteve em boa jornada, à exceção de Fernandão, mal escalado, e, novamente Michel, péssimo! É impossível entender o que se passa na cabeça de Abel Braga diante da insistência com Michel, legando o banco de reservas a jogadores da torga de Iarley, Rafael Sobis e Renteria. Sobraram espaços na defesa equatoriana, principalmente no primeiro tempo. Estando um desses jogadores no lugar do bisonho Michel, poderia o Inter ter feito até mais que o gol singular. Entretanto, para a partida de volta, ao nível do mar, a história, pelo futebol aprsentado pelo Internacional, há de ser outra!


Cygnus

segunda-feira, maio 08, 2006

RED MONDAY II

Enquanto o Inter batia o Atlético Paranaense na Arena da Baixada em Curitiba, mantendo-se, juntamente com Santos e Fluminense, no topo da tabela, nosso ominoso adversário sofria nova derrota, desta feita ante ao mistão do Vasco da Gama. São agora três derrotas consecutivas, o que remete o Grêmio ao rodapé da tabela de classificação.

O Inter realizou, senão grande partida, um desempenho bastante satisfatório, tendo dominado amplamente o time paranaense, perdendo inclusive, outras tantas chances de gol, além dos dois tentos convertidos. Apesar da falha no gol, a defesa mostrou-se sólida, a meia cancha combativa e consistente (Perdigão em campo) e o ataque, perigoso, encontrando espaços na frágil defesa atleticana.

Sobre o Grêmio, nada falo, não assisti ao jogo, mas Pereira e Alessandro estão mal escalados. Jogando no ataque com a mesma eficiência que vêm ajudando os adversários, certamente restará solucionada a deficiência ofensiva do tricolor.

Cygnus

Cinefilia I

t

































O MERCADOR DE VENEZA

Assisti, no domingo, à adaptação cinematográfica de "O Mercador de Veneza", polêmico texto de William Shakeaspeare. Polêmico porque reflete, de maneira bastante virulenta, o anti-semitismo vigente à época. O texto, inclusive, foi objeto de várias adaptações teatrais na alemanha nazista, fazendo sempre muito sucesso. Era, até mesmo, uma das peças favoritas do próprio Hitler. Ainda hoje, há reservas em relação a essa obra de Shakeaspeare.

Entretanto, hodiernamente, não se justifica tal ojeriza à obra. Como ela é fruto de uma conjuntura histórica, presta-se, nessa perspectiva, como construção documental, tecendo fiel reconstituição de um aspecto cultural da época. E, como o fator anti-semita, apesar de importante, não é o cerne da obra, sobram motivos para que o filme, bem como o texto, sejam deliciosamente apreciados.

"O Mercador de Veneza" narra o drama que se instaura entre Shylock, avaro e inflexível usurário judeu, e Antonio, mercador generoso e honrado, bem quisto pela sociedade veneziana, que despreza os agiotas judeus. Logo no início, fanáticos cristãos instigam a população à atacar os judeus. Em meio a confusão que se instala, Shylock cruza com Antonio e este cospe-lhe na face.

Porém, mais tarde, Antonio é procurado pelo nobre Bassânio, grande amigo seu (e aqui, bem como em outras passagens, conota-se uma espécie de affair homossexual entre o mercador e Bassânio), que precisa de determinada quantia para empreender viagem até a residência de Pórcia, formosa donzela, órfã e rica, cuja mão pretende demandar. Antonio, tendo suas posses empregadas em viagens mercantis ao redor do mundo, não dispõe, de momento, da quantia necessária; não obstante, oferece seu crédito para que Bassânio contraia empréstimo em seu nome. E Bassânio, então, procura justamente Shylock. Percebendo a chance de vingar-se das humilhações sofridas, traveste sua malícia em generosidade, oferecendo o dinheiro sem juros, durante três meses, alegando buscar reconciliação com Antonio. A título simbólico, exige como garantia do pagamento da dívida uma libra da carne de Antônio, mera formalidade para constar no contrato firmado entre ambos. Antonio, certo de sua liquidez dentro em breve, advinda de seus empreendimentos marítmos, aceita a condição.


Ocorre que os navios de Antonio, todos eles, naufragam e o mercador resta falido, incapaz de resgatar a dívida contraída. Findo o prazo para o pagamento o judeu, cruel e inflexível, exige a libra de carne que lhe fora oferecida em garantia, o que certamente acarretará a morte do mercador.

Além do argumento central, outras linhas narrativas desenvolvem-se entrelaçadas, influindo tanto no decurso dos acontecimentos quanto em seu dramático e arrebatador desfecho. O texto shakeasperiano foi magistralmente transposto para a mídia cinematográfica, preservando a linguagem rebuscada do original bem como as provações morais das quais o escritor inglês era entusiasta. Com efeito, toda carga dramática e densidade literária mantiveram-se intocadas, graças à evolução bem costurada dos acontecimentos. Contando com um elenco formidável, encabeçado pelos magistrais Al Pacino no papel de Shylock, Jeremy Irons como Antonio e Joseph Fiennes com Bassânio, a força dos personagens assoma-se espetacular e arrebatadora. Al Pacino, como de costume, está monstruosamente bom, desprovendo seu papel de quisquer maneirismos maniqueístas ou estereotiapdos da propalada avareza judia, induzindo no espectador uma confluência de sentimentos, que variam entre raiva, desprezo e até solidariedade por Shylock. Do mesmo modo, os outros atores conjuram excelentes performances. A produção é outro fator a ser exaltado, realizando com esmero e detalhismo a reconstituição de cenários e figurinos, bem como de aspectos culturais e sociais da época. A fotografia, igualmente, encontra-se formidável, sóbria e limpa, enaltecendo a aura teatral do filme. E, por fim, a belíssima Veneza emoldura um filme indispensável aos amantes do cinema. Há que se lamentar tão somente a confecção amadorística da edição em DVD, com imagens aquém das possibilidades do padrão digital (lembrando a era VHS) e legendas terrivelmente mal feitas. Nada, entretanto, que torne menos grata a apreciação do filme.

Cygnus

terça-feira, maio 02, 2006

Franz Kafka Vol. 1

Epílogo
Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883, cidade que durante todos os 40 anos da vida do escritor pertenceu à monarquia austro-húngara.Filho de um abastado comerciante judeu, Kafka cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã.Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico.Esse híbrido de ironia e lucidez aparece na maioria dos textos de Kafka.Suas obras também conseguem formalizar e abrigar leituras totalmente relacionadas com a condição do ser humano moderno. O olhar kafkiano é direcionado para coisas como a opressão burocrática das instituições, a "justiça" e a fragilidade do homem comum frente a problemas cotidianos.

Para ler Kafka são necessários alguns cuidados especiais, entre eles, contar com uma certa atenção à maneira com que toda obra se constrói, principalmente seus períodos; estar sempre consciente de que toda a criação literária de Kafka foi dolorida, feita com o intuito de não parecer bonita, de ser, principalmente, uma obra baseada na dor; ficar atento a todos os detalhes do texto, pois em Kafka, até as imperfeições são propositais, ou seja, segundo Theodor Adorno, até "as deformações em Kafka são precisas".Durante sua vida, Kafka nunca conseguiu atingir grande fama com seus livros, porém, algum tempo depois de sua morte, no dia 3 de junho de 1924, em um sanatório perto de Viena, onde internara-se por causa de sua tuberculose, sua obra literária atingiria enorme influência sobre as pessoas, passando a ser cultuada por leitores de quase todo o planeta.

A seguir, uma amostra do trabalho de Franz Kafka, a parábola Diante da Lei, bem como um exercício de interpretação da mesma, esse de minha própria lavra.


Diante da Lei
Franz Kafka

Diante da Lei há um guarda. Um camponês apresenta-se diante deste guarda, e solicita que lhe permita entrar na Lei. Mas o guarda responde que por enquanto não pode deixá-lo entrar. O homem reflete, e pergunta se mais tarde o deixarão entrar. “É possível” , disse o porteiro, “mas não agora”. A porta que dá para a Lei está aberta, como de costume; quando o guarda se põe de lado, o homem inclina-se para espiar. O guarda vê isso, ri-se e lhe diz: “Se tão grande é o teu desejo, experimenta entrar apesar de minha proibição. Mas lembra-te de que sou poderoso. Eu sou somente o último dos guardas. Entre os salões também existem guardas, cada qual mais poderoso que o outro. Já o terceiro guarda é tão terrível que não posso suportar seu aspecto”. O camponês não havia previsto estas dificuldades; a Lei deveria ser sempre acessível para todos, pensa ele, mas ao observar o guarda, com seu abrigo de pele, seu nariz grande e como de águia, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta. Ali espera dias e anos. Tenta infinitas vezes entrar, e cansa ao guarda com suas súplicas. Com freqüência o guarda mantém com ele breves palestras, faz-lhe perguntas sobre seu país, e sobre muitas outras coisas; mas são perguntas indiferentes, como as dos grandes senhores, e para terminar, sempre lhe repete que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se abasteceu de muitas coisas para a viagem, sacrifica tudo, por mais valioso que seja, para subornar o guarda. Este aceita tudo, com efeito, mas lhe diz: “Aceito-o para que não julgues ter omitido algum esforço”. Durante esses longos anos, o homem observa quase continuamente o guarda: esquece-se dos outros, e parece-lhe que este é o único obstáculo que o separa da Lei. Maldiz sua má sorte, durante os primeiros anos temerariamente e em voz alta; mais tarde, à medida que envelhece, apenas murmura para si. Retorna à infância, e, como em sua longa contemplação do guarda, chegou a conhecer até as pulgas de seu abrigo de pele, também suplica às pulgas que o ajudem e convençam ao guarda. Finalmente, sua vista enfraquece-se, e já não sabe se realmente há menos luz, ou se apenas o enganam seus olhos. Mas em meio à obscuridade distingue um resplendor, que surge inextinguível da porta da Lei. Já lhe resta pouco tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências desses longos anos se confundem em sua mente em uma só pergunta, que até agora não formulou. Faz sinais ao guarda para que se aproxime, já que o rigor da morte endurece seu corpo. O guarda vê-se obrigado a baixar-se muito para falar com ele, porque a disparidade de estaturas entre ambos aumentou bastante com o tempo, para detrimento do camponês. “Que queres saber agora?”, pergunta o guarda. “És insaciável”. “Todos se esforçam para chegar à Lei”, diz o homem ; “como é possível então que durante tantos anos ninguém mais do que eu pretendesse entrar?”. O guarda compreende que o homem já está para morrer e, para que seus desfalecentes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz atroadora: “Ninguém podia pretender isso, porque esta entrada era somente para ti. Agora vou fechá-la”.
___________________________________________________________________

A parábola A Lei conjura de maneira sintética todas as características de Franz Kafka como escritor. Ali se pode encontrar desde a miríade de sentimentos induzida pela estética do autor, bem como a confluência de linhas de fuga interpretativas que ele sempre propõe em seus escritos.Em minha singela opinião, apesar de percebido como realista, por fazer uso de características do estilo, Kafka é, antes de tudo, um expressionista, um escritor extremamente subjetivo. Suas obras estão sempre imbuídas de atmosferas labirínticas e sufocantes, em que o porquê da sucessão de eventos, carregados de opressão e surrealismo, permanece sempre pendente, como a ser revelado de maneira abrupta; não obstante, ao final da leitura, mantém-se em aberto, deixando o leitor à vontade para tecer sua própria interpretação e assimilar o significado da maneira que melhor lhe aprouver. Entretanto, a essência da construção literária kafkiana é sempre a mesma, com sutis variações: a confusão do homem singular ante a forças de carma antagônico que assomam-se esmagadoras e inquebrantáveis, arrastando o indivíduo em uma espiral caótica em que sua essência é dele subtraída em prol de uma alienação coletiva que mantém a ordem de todas as coisas. As correlações de força-submissão entre dominantes e dominados, com efeito, também se fazem presentes, de modo ao mesmo tempo denso e minimalista.

O que se pode depreender de A Lei? Antes de tudo, faz-se mister definir o que é, afinal A Lei, no contexto da parábola. E aí já começa a instaurar-se o multiverso interpretativo urdido por Kafka. A Lei, destarte, poderia ser a lei social que rege um grupo pequeno de privilegiados, vilipendiando todos aqueles menos agraciados pela sorte que sob sua égide também queiram ser guarnecidos em seus direitos. Poderia tão somente ser interpretada como uma crítica a burocracia da lei, que dificulta, quando não impede, o acesso do homem comum a ela. Nesse caso, os guardiões erigem-se como as diversas e gradualmente mais caóticas, como um leviatã de formalismo ininteligível ao comum, instâncias. Poderia ser, por que não, a Lei de Deus? Nesse caso, por que a Lei de Deus recusa-se a aceitar o camponês? Não teria o camponês, diante das dificuldades, se acovardado e desistindo de chegar a Ele, preferindo ficar nas trevas e tentando entender Deus através de um intermediário – o primeiro guardião, um sacerdote? Desse modo, a parábola transfigura-se como crítica ao clero, como se este estivesse encarregado de sonegar a verdadeira essência de Deus ao homem, a fim de mantê-lo escravo, ao invés, como apregoam, de libertar-lhe dos pecados materiais. Uma gama de outras formas interpretativas pode advir, e muito da personalidade e/ou do estado de espírito do leitor nelas influem.

Entender o significado da Lei e do Guardião, seja qual for linha de escape subjetivo assumida pelo leitor é imprescindível para que se entenda todo o resto. Observe-se a seguinte passagem: “(...) a Lei deveria ser sempre acessível para todos, pensa ele, mas ao observar o guarda, com seu abrigo de pele, seu nariz grande e como de águia, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta.” . Mesmo sendo um camponês humilde, algo em seu íntimo lhe diz que aquela situação, a inacessibilidade da Lei, não é, de forma alguma, justa. Entretanto, a aparência imponente e ameaçadora do guarda lhe intimida, e de maneira tão vigorosa que ele submete-se a essa intimidação, preservando assim, sua existência. Ao mesmo tempo em que ele protege sua vida, ele a sonega, preferindo o vazio da ignorância ao perigo e recompensa do conhecimento encerrado na Lei, como o fazem os homens diante da vida e da dificuldade. Também é somente uma linha interpretativa, tão singular para mim como poderia ser diversa para outrem. Entretanto, talvez aí haja a única passagem que conduza a uma conclusão consensual, qualquer seja a assimilação diversa: toda essa passagem condensa a figura do MEDO e as escolhas que o homem faz diante dele. Até mesmo os detalhes descritivos da aparência do guarda, a pele, a barba de tártaro, são passíveis de subjetivação, em cada um desses minimais aspectos. Mas não irei me deter neles, ao menos na brevidade desse pedaço d’escrita, pois há misteres mais relevantes que demandam atenção. Quando, por exemplo, o guardião se apieda do camponês e lhe oferece um banquinho para que ele sente-se e espere: deste simples gesto, no contexto da parábola, também brotam as mais variadas maneiras de interpretação, mas, de maneira mais simplista, o banquinho configura-se numa compensação miserável pela submissão do camponês àquilo que lhe é imposto: garante-lhe um mínimo de conforto, porém o mantém estagnado, preso ao banquinho. Também a figura do guardião, ao dar-lhe o banquinho para que ele espere e lhe afirmando reiteradas vezes que ele ainda não está pronto, confunde-se, de certa maneira com uma figura paternal, que para manter-se protetora e detentora de poder sobre o filho, oferece-lhe ao mesmo tempo em que lhe castra a determinação.
Outras passagens mereceriam análise, mas, mesmo à contragosto, para manter a brevidade do texto, passo ao largo delas rumo à apoteose final: “como é possível então que durante tantos anos ninguém mais do que eu pretendesse entrar?”. O guarda compreende que o homem já está para morrer e, para que seus desfalecentes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz atroadora: “Ninguém podia pretender isso, porque esta entrada era somente para ti. Agora vou fechá-la”. Aí Kafka escancara sua exuberante genialidade. Todas as interpretações as quais procurei dar forma acabaram entremeando-se, de modo que ao final, restou uma colagem perneta e confusa, buscando unir cada uma das linhas de fuga num única síntese. Ao mesmo tempo em que explica, o final, de certa forma também destrói as interpretações posteriores e causa ingente inquietação no leitor. Deixo, pois, a cada um, interpretar, à moda kafkiana, da maneira que melhor achar adequada.
Cygnus

Sexualidade e Hipocrisia

As pessoas têm uma relação de profunda hipocrisia com sua sexualidade. É um sumário de neuroses induzidas por valores morais absurdos que negam a essência sexual do ser humano. Uma auto-censura forjada artificialmente sufoca toda genuína manifestação da sexualidade, que acaba vilipendiada de maneira vulgar no cotidiano e a ela só é dada vazão no âmbito particular, onde toda sorte de taras e fetiches são levadas a efeito. Por óbvio, a prática sexual deve, sim, restringir-se à esfera pessoal, mas apenas por uma questão de maior envolvimento da pessoa com sua sexualidade, submersão total ao jogo sexual, sem a interferência do mundo externo e não, como é visto hodiernamente, que o sexo seja algo a ser escondido. Algumas das taras e fetiches são absolutamente sadias; outras, como a ominosa e doentia pedofilia, altamente nocivas e devem ser combatidas com todas as forças pela sociedade. Mas aqui não estão em questão as diferentes práticas sexuais e sim o ethos da sexualidade e a maneira hipócrita como ele é encarado na sociedade, comportamento que chega às raias da patologia e, por vezes, transpõe esse limite.

Peguemos dois exemplos recentes, que foram amplamente destacados pelos veículos de comunicação: a jovem F.F., da cidade paulistana de Pompéia, cujas fotos em que ela aparece fazendo sexo com dois parceiros foram divulgadas pela internet; e Bruna Surfistinha.

Após a divulgação das malfadadas fotos, F.F. sofreu tenebrosas humilhações perpetradas pelos estudantes da faculdade de Direito cursada por ela. Foi forçada a evadir-se do local sob proteção policial, pois a turba enfurecida dava mostras de que partiria para a agressão física, tamanho foi o ódio que as imagens provocaram em seus colegas, que até poucas horas atrás, lhe eram companheiros amistosos. Para defender-se (como se algum crime tivesse cometido), apressou-se em declarar que as tais fotos eram falsas, montagens engendradas por um pérfido rapaz com quem ela recusara-se, de pleno direito, a relacionar-se. Pois bem, no dia em que as fotos foram espraiadas pela rede, acessei por acaso um link de sacanagem que me foi enviado, donde constavam as imagens. Sim, eu acessei as fotos. Sim, eu fiquei excitado com elas. Quem não ficaria? O vouyerismo é das taras mais genuínas da sexualidade humana; nesse caso específico a excitação era ainda maior por tratar-se de fotos em que o sexo era espontâneo e a satisfação dos praticantes, verdadeira. Com todo respeito ao expediente defensivo de F.F. as fotos não são, em absoluto, montagens. Na remota hipótese de que sejam, é por obra de meticuloso e competentíssimo artista gráfico, que certamente não faria tal serviço por meia dúzia de tostões. Mas isso não é o mais importante. O que causa repulsa, em qualquer pessoa de mentalidade mais aberta, foi a reação de virulenta hipocrisia que as imagens ensejaram na grande maioria das pessoas. F.F. tão somente levou a cabo dois dos mais recorrentes fetiches: fazer sexo a três e exibir-se nessa situação, de comum acordo e plena confiança, aos dois rapazes que a fotografaram. Porém, o tratamento a ela dispensado foi medonho. F.F., a meu ver, despertou a ira invejosa das pessoas que, sem ter, como ela teve, coragem de dar-se o direito de obter prazer sexual da forma que lhe apraz, acorreram céleres a escarnecê-la. Outra manifestação comum, publicada em listas de discussão, foi que F.F. “não pensou em seus pais e na vergonha que lhes causaria”. Ora, decerto é a jovem, uma pessoa nefasta e má filha por que fez sexo à três? Decerto é esse fato que deve estar no plano primário da definição do caráter de alguém? Afinal, até onde lhe concernia, as fotos deveriam permanecer encerradas no âmbito privado dos que participaram da divertida orgia. Essas manifestações são ridículas, talvez ainda mais ridículas que a atitude da pessoa que, imbuído de pérfida sordidez, disseminou as imagens na rede. Pois essas pessoas, ao saberem do fato, atiraram-se, em sua maioria, à ávida busca pelas fotografias, afim de satisfazerem sua lasciva curiosidade e depois, desprovidos de qualquer envergadura moral, criticarem maldosamente a jovem por ter tido a ousadia que eles não tiveram.

Em posição diametralmente oposta, encontra-se Bruna Surfistinha, a garota de programa que, graças a internet, tornou-se celebridade, assim como a internet fez a desgraça de F.F. Histórias parecidas, mas com assimilação diversa pela opinião pública. A diferença, a meu ver, radica no fato de que Bruna expôs de livre e espontânea vontade sua intimidade para o mundo. Além do mais, Bruna era uma prostituta, e o que se poderia fazer para reduzi-la ainda mais? Afinal, tudo de depreciativo que dela fosse dito não lhe atingiria com a mesma contundência com que F.F. foi atingida. Pelo contrário, Bruna é enaltecida pela “coragem” em expor-se, em fornecer farto material de masturbação para taradinhos e taradinhas cibernéticos. Destarte, falar mal de Bruna seria desperdício de veneno retórico. É claro, acessei o blog da moça. Foi trabalhoso; o tráfego intenso de internautas entulhava a passagem de minha conexão. Tive que esperar minha vez. Enfim, consegui meu intento. O que primeiro me chamou a atenção, pelo que me recordo, foi o assombroso número de visitas amealhadas por seu site, na casa das centenas de milhares. Depois me entreguei à luxúria da leitura de suas peripécias eróticas no labor da prostituição. O que se tinha ali era uma coleção de relatos vulgares sobre seus clientes, com utilização ostensiva de termos chulos e sucessivas atrocidades lingüísticas (ora, para Bruna, certamente a língua limita-se ao prazer erótico que pode proporcionar); muito mais ofensivo, portanto, à “moral e aos bons costumes” que a fotos de F.F., dotadas de inebriante beleza erótica, apesar de serem assaz explícitas. Enfim, tudo aquilo que satisfaz a ânsia vouyerista do gênero humano. Prato cheio para o oportunismo midiático e editorial, que transpôs, em pouquíssimo tempo, o blog para a mídia impressa. Todos ficaram felizes; editora que vendeu às catadupas; público, que adorou a leitura pornográfica; e a própria Bruna, a “corajosa” espertalhona que, com o dinheiro e a fama auferida largou a prostituição e foi viver feliz, lépida e faceira. Até mesmo no Jô Soares a intrépida moça deu o ar da graça, rendendo uma entrevista antológica e sendo aplaudida com entusiasmo pela audiência.

Toda essa história conduz-me à seguinte conclusão: Bruna e F.F. são pessoas como eu e você, cujo caráter tem defeitos e virtudes. Mas nada tem a ver o caráter de alguém com seus hábitos sexuais, desde que eles sejam sadios e lícitos. Bruna é aceita somente por imposição da mídia que a transformou em estrela, ícone de autenticidade. E mostra que, entre homens e mulheres, no que tange à sexualidade, ainda imperam os avantêsmicos vícios do machismo, da hipocrisia e da intolerância.

Cygnus

segunda-feira, maio 01, 2006

Garotinho e a Greve!

A greve de fome de Anthony Garotinho, pré-candidato à presidência da república pelo pérfido PMDB, há de ficar registrada à posteriori no anedotário político brasileiro como uma das mais risíveis pataquadas perpetradas por um homem público em toda história.

Não tendo como rebater, com argumentos e fatos, as denúncias que pesam contra ele, o ominoso político, num primeiro momento apelou para o surradíssimo expediente de atacar seus críticos, já que a crítica assomava-se robusta e inquebrantável, lastreada em verdade documental, declarando, de maneira vazia e demagógica, estar em curso sórdida campanha midiática afim de demolir-lhe a já combalida imagem. Não obtendo sucesso, foi ainda além, iniciando essa patética greve de fome, tal qual um Garotinho mimado!

Além do senso de ridículo, o rechonchudo político já perdeu 700 gramas. Sua saúde agradece.
Red Monday!!!!

Ah, como amiúde tem ocorrido ao longo dos últimos meses cá nos pampas, a segunda feira amanhece vermelha.

Eis que o castelinho de areia de nosso tradicional adversário tricolor, que já começara a ruir na rodada anterior do Campeonato Brasileiro, ontem foi inapelavelmente implodido pela catadupa de gols e futebol envolvente imposto pelo modesto Paraná Clube. Não assisti à partida, afinal, no mesmo horário jogava meu amado Sport Club Internacional, mas pelos comentários, o esquema defesivista de Mano Menezes, que funcionou a contento em um curto espaço de tempo, mostra-se já saturado e carecendo de renovação tática. Além do que, já era sabido que a qualidade técnica dos jogadores é assaz limitada. Urgem, destarte, contratações de qualidade. Em sua coluna na ZH de hoje, Paulo Sant'anna asseverou com propriedade:"(...) qualquer esforço financeiro que a direção faça neste momento para qualificar o time será imensamente mais compensador que a catástrofe financeira e moral que advier de outro rebaixamento." O ático colunista está coberto de razão. O Campeonato está ainda incipiente, foram apenas três rodadas; há tempo, pois, para que o Grêmio dê uma guinada de rumo. Resta saber se a direção gremista, ante a escassez de recursos financeiros nos cofres tricolores, terá a audácia criativa necessária para fazê-lo. E, à torcida, resta auxiliar o time, comparecendo ao estádio ao menos. Já passou da hora de os torcedores do Grêmio mostrarem no plano fático, o até agora subjetivo amor que declaram por seu time; é nítido o oportunismo da torcida de azul, que dá as caras apenas quando seu time vai bem.

Já no Beira-Rio, o Internacional obtia mais uma vitória; são agora vinte e cinco partidas de invencibilidade; desde agosto do ano passado não somos batidos em nosso território. Os números estão à favor de Abel Braga.

Ocorre que os números não refletem o futebol apresentado pelo Internacional em campo na tarde de ontem. Descontado o desentrosamento ensejado por uma escalação de reservas em sua maioria, ainda assim, dada a qualidade dos jogadores, foi assustadora a pobreza do futebol cometido pelo Inter na tarde de ontem. Sem capacidade de articulação, a meia cancha do Internacional restava vazia, território amplamente dominado pelo limitado escrete flamenguista, que só não teve melhor sorte na partida porque seu time é muito ruim. Inoperante ofensivamente no primeiro tempo e acuado em seu campo de defesa no segundo, foi sofrida a vitória de ontem. Mesmo desentrosado, não há excusas que expliquem a má distribuição do Internacional em campo; mostrou-se sem consistência e assustadiço o colorado e, por essa seara, justamente é que passa o dedo do treinador. Abel Braga tem tido mais sorte do que destreza tática. É urgente uma definição de esquema e de titulares. E que escale-se Fernandão no meio de campo, afim de que tanto setor quanto jogador, rendam mais.

Mas enfim, vencemos. Três pontos são três pontos e a arrancada entusiasmante do Internacional no Campeonato já permite que a torcida acalente sonhos imodestos.

Até breve!



Pushing the start button!

Is there anybody out there?

Ok, trata-se de uma pergunta retórica. Afinal, este é tão somente a postagem inaugural desse blog e ainda não tenho leitores.

Como post inaugural então, eis o que é proposto nesse espaço: devaneios e apontamentos sobre musica, cinema, literatura e demais manifestações artísticas; resenhas de discos e filmes, sejam eles atuais ou clássicos; considerações sobre o cenário político brasileiro e internacional; cavilações filosóficas; publicação de obras literárias de minha própria lavra; comentários futebolísticos.

Enfim, tudo aquilo que possa ser interessante.

I hope to see you soon!