segunda-feira, maio 08, 2006

Cinefilia I

t

































O MERCADOR DE VENEZA

Assisti, no domingo, à adaptação cinematográfica de "O Mercador de Veneza", polêmico texto de William Shakeaspeare. Polêmico porque reflete, de maneira bastante virulenta, o anti-semitismo vigente à época. O texto, inclusive, foi objeto de várias adaptações teatrais na alemanha nazista, fazendo sempre muito sucesso. Era, até mesmo, uma das peças favoritas do próprio Hitler. Ainda hoje, há reservas em relação a essa obra de Shakeaspeare.

Entretanto, hodiernamente, não se justifica tal ojeriza à obra. Como ela é fruto de uma conjuntura histórica, presta-se, nessa perspectiva, como construção documental, tecendo fiel reconstituição de um aspecto cultural da época. E, como o fator anti-semita, apesar de importante, não é o cerne da obra, sobram motivos para que o filme, bem como o texto, sejam deliciosamente apreciados.

"O Mercador de Veneza" narra o drama que se instaura entre Shylock, avaro e inflexível usurário judeu, e Antonio, mercador generoso e honrado, bem quisto pela sociedade veneziana, que despreza os agiotas judeus. Logo no início, fanáticos cristãos instigam a população à atacar os judeus. Em meio a confusão que se instala, Shylock cruza com Antonio e este cospe-lhe na face.

Porém, mais tarde, Antonio é procurado pelo nobre Bassânio, grande amigo seu (e aqui, bem como em outras passagens, conota-se uma espécie de affair homossexual entre o mercador e Bassânio), que precisa de determinada quantia para empreender viagem até a residência de Pórcia, formosa donzela, órfã e rica, cuja mão pretende demandar. Antonio, tendo suas posses empregadas em viagens mercantis ao redor do mundo, não dispõe, de momento, da quantia necessária; não obstante, oferece seu crédito para que Bassânio contraia empréstimo em seu nome. E Bassânio, então, procura justamente Shylock. Percebendo a chance de vingar-se das humilhações sofridas, traveste sua malícia em generosidade, oferecendo o dinheiro sem juros, durante três meses, alegando buscar reconciliação com Antonio. A título simbólico, exige como garantia do pagamento da dívida uma libra da carne de Antônio, mera formalidade para constar no contrato firmado entre ambos. Antonio, certo de sua liquidez dentro em breve, advinda de seus empreendimentos marítmos, aceita a condição.


Ocorre que os navios de Antonio, todos eles, naufragam e o mercador resta falido, incapaz de resgatar a dívida contraída. Findo o prazo para o pagamento o judeu, cruel e inflexível, exige a libra de carne que lhe fora oferecida em garantia, o que certamente acarretará a morte do mercador.

Além do argumento central, outras linhas narrativas desenvolvem-se entrelaçadas, influindo tanto no decurso dos acontecimentos quanto em seu dramático e arrebatador desfecho. O texto shakeasperiano foi magistralmente transposto para a mídia cinematográfica, preservando a linguagem rebuscada do original bem como as provações morais das quais o escritor inglês era entusiasta. Com efeito, toda carga dramática e densidade literária mantiveram-se intocadas, graças à evolução bem costurada dos acontecimentos. Contando com um elenco formidável, encabeçado pelos magistrais Al Pacino no papel de Shylock, Jeremy Irons como Antonio e Joseph Fiennes com Bassânio, a força dos personagens assoma-se espetacular e arrebatadora. Al Pacino, como de costume, está monstruosamente bom, desprovendo seu papel de quisquer maneirismos maniqueístas ou estereotiapdos da propalada avareza judia, induzindo no espectador uma confluência de sentimentos, que variam entre raiva, desprezo e até solidariedade por Shylock. Do mesmo modo, os outros atores conjuram excelentes performances. A produção é outro fator a ser exaltado, realizando com esmero e detalhismo a reconstituição de cenários e figurinos, bem como de aspectos culturais e sociais da época. A fotografia, igualmente, encontra-se formidável, sóbria e limpa, enaltecendo a aura teatral do filme. E, por fim, a belíssima Veneza emoldura um filme indispensável aos amantes do cinema. Há que se lamentar tão somente a confecção amadorística da edição em DVD, com imagens aquém das possibilidades do padrão digital (lembrando a era VHS) e legendas terrivelmente mal feitas. Nada, entretanto, que torne menos grata a apreciação do filme.

Cygnus

Nenhum comentário: