Isaiah tinha fases cósmicas, e estava vivendo uma delas, doidão de ácido assistindo a imagem projetada nas paredes da sonda Voyager 1 em missão rumo à Júpiter , enquanto escutava embasbacado, os sons produzidos pelo campo eletromagnético do planeta, convertidos em ondas sonoras pelos instrumentos da nave. O universo roncava múltiplas possibilidades delirantes para explicar a existência e a mente encharcada de LSD tentava processá-las através das imagens mais psicodélicas que se pode conceber. Ele teve ímpetos de gritar de êxtase diante das realidades desveladas naquela viagem, mas a paranóia lhe assaltou de súbito, quando deu-se conta de que estava em casa, trancado no quarto, com os pais assistindo a novela das oito na TV, cujo discurso do vilão ressoava pelas paredes da casa e misturava-se à epifânia dos sons espaciais que irradiavam das caixas de som: “Vocês TODOS hão de me pagar por essa humilhação” – vociferava o vilão, embalado pelo ronco de Júpiter.
Um ingrediente adicionou-se à paranóia: TOC, TOC, TOC, batidas na porta, que fizeram seu coração sobressaltar em batidas irregulares. Ele sentiu-se enjoado quando ouviu a voz de sua mãe perguntado se não queria descer para assistir novela. Ouviu sua mente gritar “QUE MERDA TER TOMADO ÁCIDO EM CASA, BUNDÃO”, e depois não compreendeu se tinha gritado mentalmente ou realmente. Sentiu o baque do silêncio surpreso atrás da porta. Ele tinha berrado alto. Júpiter continuava girando na parede branca do quarto escuro, e o Universo continuava roncando...
No meio daquele arrepio, em um lampejo, levantou-se da cadeira, deu dois passos largos e macios rumo ao banheiro e fechou silenciosamente a porta. Ouviu a batida novamente. TOC TOC TOC, “filho, abre a porta!”