domingo, junho 19, 2011

Múltiplas Possibilidades de Paranóia Parte 1

Isaiah tinha fases cósmicas, e estava vivendo uma delas, doidão de ácido assistindo a imagem projetada nas paredes da sonda Voyager 1 em missão rumo à Júpiter , enquanto escutava embasbacado, os sons produzidos pelo campo eletromagnético do planeta, convertidos em ondas sonoras pelos instrumentos da nave. O universo roncava múltiplas possibilidades delirantes para explicar a existência e a mente encharcada de LSD tentava processá-las através das imagens mais psicodélicas que se pode conceber. Ele teve ímpetos de gritar de êxtase diante das realidades desveladas naquela viagem, mas a paranóia lhe assaltou de súbito, quando deu-se conta de que estava em casa, trancado no quarto, com os pais assistindo a novela das oito na TV, cujo discurso do vilão ressoava pelas paredes da casa e misturava-se à epifânia dos sons espaciais que irradiavam das caixas de som: “Vocês TODOS hão de me pagar por essa humilhação” – vociferava o vilão, embalado pelo ronco de Júpiter.

Um ingrediente adicionou-se à paranóia: TOC, TOC, TOC, batidas na porta, que fizeram seu coração sobressaltar em batidas irregulares. Ele sentiu-se enjoado quando ouviu a voz de sua mãe perguntado se não queria descer para assistir novela. Ouviu sua mente gritar “QUE MERDA TER TOMADO ÁCIDO EM CASA, BUNDÃO”, e depois não compreendeu se tinha gritado mentalmente ou realmente. Sentiu o baque do silêncio surpreso atrás da porta. Ele tinha berrado alto. Júpiter continuava girando na parede branca do quarto escuro, e o Universo continuava roncando...

No meio daquele arrepio, em um lampejo, levantou-se da cadeira, deu dois passos largos e macios rumo ao banheiro e fechou silenciosamente a porta. Ouviu a batida novamente. TOC TOC TOC, “filho, abre a porta!”

segunda-feira, novembro 12, 2007

The Spacious Mind - Cosmic Minds At Play


Faixas:


1- To Earth With Love

2- Sunchild

3- Dnimehts Of Us

4- Seashore Trees


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Dentre as descobertas sensacionais do ano de 2007, figura no topo indubitavelmente a banda sueca The Spacious Mind. Tal entendimento se consolidou à primeira audição de To Earth With Love: é a trilha sonora da gênese do universo, a emulação turbulenta e metafísica de dionisíacas orgias das deidades psicodélicas, induzindo a mente a um estado de catatonia psicotrópica, pulverizando o intelecto, restando ecos de lucidez, para a Terra, com amor.

Há, com efeito, uma inequívoca tintura hippie tingindo a sonoridade de Cosmic Minds At Play; trata-se, contudo, não da iridescência primordial do movimento, irradiando brumas púrpuras de beatitude transcendente, mas sim das sulfurosas emanações dark side da psicodelia hellraiser, conjurando / celebrando o requiém da propulsão onírica daquele movimento. É, pois, blasfema cabala sônica no âmago do mais inconsciente abismo mental, quiçá a Gehenna e o recomeçar póstumo, a recriação cósmica a partir de fragmentos do Apocalipse.

E pouco importa a duração dessas lisérgicas epopéias, já que o tempo, na cosmovisão pretendida pela banda, é eterno presente dissolvendo-se em reflexos calcinantes na luz dos séculos. Ora, ao ouvir o folk alienígena de Dnimehts Of Us, onde tramas acústicas de beleza transfinita são envolvidas e revolvidas por caudalosas ondas de surrealismo alucinógeno via drones e synths dissonantes, submergindo harmonias vocais entorpecidas e peregrinando por entre os gêiseres da sedação infinita, nada é mais descabido que noção de tempo.

De todo modo, o que até agora escutamos tão somente prepara a heresia final, épico essencial para acabar como todos os épicos essenciais da história da música psicodélica: Seashore Trees. Como, pois, prever o devastador arranque que propele esta galáxia do estraçalhamento transpsicodélico em trajetória errante e descontrolada por sendas hostis no pós-armageddom sideral traduzido em desatino instrumental via bordoadas ofegantes desferidas por bateria free form; guitarras plasmando oceanos elétricos inundando ao colapso o sistema nervoso; o baixo trovejando como Cérbero rugindo nos portões do Hades. E daí como prever a sutil transmutação que se opera no andamento da canção, remetida à gélida nevasca radioativa precipitando-se ácida sobre geleiras fulgurantes de placidez etérea num repente enveredando pela melancolia de um mantra boreal entoado por xamã pagão no começo dos tempos.

Baixem e comentem e digam se é exagero ou se estou errado.

sábado, novembro 10, 2007

White Noise - An Electrical Storm


Faixas:


1- Love Without Sound

2- My Game Of Loving

3- Here Comes The Fleas

4- Firebird

5- Your Hidden Dreams

6- The Visitation

7- The Black Mass - An Electrical Storm In Hell

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Após dois posts rock and roll, resolvi enveredar por outro território musical, disponibilizando o magistral An Electrical Storm, da "banda" inglesa White Noise. Pioneiros da música eletrônica (à época conhecida como "elétrica" - rock era musica amplificada) juntamente com a igualmente britânica Silver Apples e a estadunidense The United States Of America, o projeto, constante de uma parceria entre sonoplastas da rede de televisão BBC resultou em um disco brilhante e revolucionário, suplantando a precariedade tecnológica da era pré-moog com infrene ímpeto desbravador e coruscante criatividade.

Lançado em 1969, o álbum em tela configura-se em inebriante fusão do pop psicodélico sessentista com a vanguarda eletrônica, incorporando elementos estéticos improváveis: fosse manipulando sons incidentais, jingles de séries de TV e musiqué concréte - tudo articulado através de colagens e uso de recursos de estúdio no limiar das possibilidades oferecidas - fosse explorando os osciladores de frequencia (responsáveis pelos sons space daquela época) ou investindo em passagens pop ortodoxas, o que importava era criar musica original, pungente e relevante, mister levado a efeito com incrível senso artístico, jamais caindo na auto-indulgência. A musica do White Noise é dinâmica e elegante, com amosferas ora assutadoras, ora blasé derramando-se por bares noir enfumaçados da beat generation.

Com efeito, tal sofisticação fica patente em faixas como a abertura Love Without Sound, narcótica balada psicodélica num repente dissolvendo-se em enigmática passagem fragmentária e sons literalmente orgásticos, na bela My Game of Loving remetendo a imaginação a uma espécie de boemia onírica essencialmente vintage, na labiríntica Here Comes de Fleas, pejada de assimetrias e climas cabaret/circense ou na sobrenatural The Visitation, conto fantasmagórico sobre um morto que resolve voltar e consolar os que aqui ficaram - e, de fato, a ambiência conjurada nessa música consegue efetivamente induzir medo e suspense. O disco culmina na avassaladora The Black Mass - An Electrical Storm In Hell, mefistotélica jam instrumental, gradualmente propelida a um final hipercinético arrebatador.

An Electrical Storm, pelo seu caráter singular e pela impressionante integridade ao longo de sua duração, malgrado o mosaico estilístico, é um disco simplesmente essencial - quem busca música além do ortodoxo palatável há de maravilhar-se com esse álbum.














quarta-feira, outubro 31, 2007

The Allman Brothers Band - At Fillmore East



Faixas:

1- Statesboro Blues

2- Done Somebody Wrong

3- Stormy Monday

4- You Don't Love Me

5- Hot 'lanta

6- In Memory Of Elizabeth Reed

7- Whipping Post


Download:




Indubitavelmente banda basilar da história do rock and roll, The Allman Brothers Band elevou o southern rock, gênero de sonoridade bastante conservadora, ao state of art nos patamares qualitativos das melhores produções de vanguarda de qualquer gênero.


Malgrado não ser lá muito afeito aos discos de estúdio dos americanos, justamente por ali não haver grande emoção e transcendência, apesar de inegável destreza técnica superior, o disco em tela é dos melhores que já ouvi, registro essencial em que se desvela o colossal poderio musical da banda quando laborando em seu habitat natural - no caso o mítico stage da casa de shows novaiorquina Fillmore East, templo sagrado onde foram conjurados alguns dos mais inebriantes rituais de paganismo sônico da música mundial.


Eis que no álbum ora tratado, a banda converte blues tradicionais como a abertura Statesboro Blues em peças de qualidade metafísica, sublimes workouts de opulência musical para além de redundantes reproduções conservadoras como ocorria nos seu discos regulares, por obra e graça do talento musical supino de seus membros, em especial Duane Allman, mestre inconteste das seis cordas, com seu som técnico, elegante e criativo, possuidor de notável senso de improviso e perspectiva melódica.


Para além dos standarts, temos canções pinçadas meticulosamente no repertório da banda, tais como a instrumental In Memory Of Elisabeth Reed e a magistral Whipping Post, temas por si só poderosos, mas que ao vivo transfiguram-se em mefistotélicas sinfonias de celebração rock psicotrópica. O restante do álbum resta no mesmo nível; cada passagem revelando nuances assombrosas e surpreendentes desta que é considerada por muitos a mais sensacional formação a já ter pisado em um palco no planeta.


Resumindo, o álbum disponibilizado é um dos mais brilhantes de todos os tempos, imprescindível.



terça-feira, outubro 30, 2007

Blue Cheer - Vincebus Eruptum


01 - Summertime Blues
02 - Rock Me Baby
03 - Doctor Please
04 - Out of Focus
05 - Parchment Farm
06 - Second Time Around
DOWNLOAD:


A re-inauguração do blog merece um álbum a altura, compatível com seu novo caráter, ou com a retomada da essência originalmente proposta neste espaço. Depois de muito pensar, acabei por decidir-me pelo magnífico Vincebus Eruptum, da banda americana Blue Cheer; pérola perdida, sem dúvida um dos álbuns mais intensos e revolucionários da história do rock.

Lançando em 1968, Vincebus Eruptum à época não logrou grande sucesso junto ao público, ainda que tenha sido devidamente apreciado por uma geração de garotos que viriam a formar algumas das maiores bandas de rock and roll nas décadas vindouras. Culpa, por óbvio, do caráter inacessível do disco, em seu contexto, em plena época hippie e ainda hoje, apesar de o cover de Summertime Blues, canção originalmente lançada por Eddie Cochran ainda nos anos 50, ter obtido um Top 40 no chart de singles americano. Vincebus Eruptum, a estréia da banda, era heavy metal antes de surgir o heavy metal como gênero, delineou o stoner três décadas antes de surgir um movimento de bandas associadas a essa sonoridade, eletrocutou o blues em voltagem, talvez, mais alta que o próprio Led Zeppelin; em suma: foi o álbum mais arrebatador e brutal lançado até então.

Com efeito, a agressividade inerente ao álbum fica patente em faixas demolidoras como a já citada Summertime Blues, Doctor, Please e Parchment Farm, devastações de acabamento hard/psicodélico ultra saturado e demencial, bem como no blues de construção tradicional Rock Me Baby, no que difere pelo arrojo eivado de psicodelia hellraiser, no rock and roll certeiro e pejado de groove conjurado em Out Of Focus e no deformado épico de encerramento, a fabulosamente tortuosa Second Time Around. Liricamente, a banda nos brinda com temas essenciais da subversão rock and roll: drogas, sexo e condução instintivamente desregrada da vida.

Eis então senhores, Vincebus Eruptum: verdadeira OBRA-PRIMA, disco nascido essencial: é por álbuns assim que se forjam os sonhos sombrios e transgressores do rock and roll.

Cadafalso da Moral em nova fase

Aos insignes leitores, se é que há algum:

O Cadafalso da Moral entra, à partir de agora, em nova fase. Além da alteração no layout, saem os posts sobre futebol, que terão um blog à parte e passará a focar apenas em música, literatura, filosofia e cinema, bem como na produção intelectual de minha própria lavra.

É isso, espero que gostem.

Theo

terça-feira, dezembro 26, 2006



COMETS ON FIRE - AVATAR

Eis aí senhores, na humilde opinião desse escriba, o melhor disco de 2006. De fato, em termos de preferência pessoal, coloco esse álbum já no patamar dos clássicos, mesmo que seja assim tão recente. Ocorre que o rock é uma espécie de fonte de idéias, donde as mais diversas bandas extraem o sumo sônico e lhe moldam conforme um ideal estético. Por isso é o rock atemporal, por isso é o rock o gênero musical mais marcante de nossa era. E por conta de formações como o Comets On Fire ele nunca fenece; bandas assim lhe induzem vigor, renovação e lhe propelem a surpreendentemente inauditas incursões nos mais elevados patamares de desassombro criativo.

É difícil a um só tempo escancarar referências e ainda manter identidade e caráter atual quando se faz rock hodiernamente. Mas a banda em tela o consegue e ainda passeia livremente por todo tipo de experimentalismo, mesmo que de maneira mais comedida do que nos discos anteriores. Se antes a banda era experimentalmente radical aqui eles abrem espaço para um senso de composição mais amadurecido e certeiro. Ou seja, a experimentação é controlada e direcionada para musicas mais ortodoxamente estruturadas. O que não quer dizer, absolutamente, que falta peso ou insipiração. Ao contrário, ambos fatores estão mais pungentes do que nunca no som da banda, fluindo com admirável destreza por toda sorte de idéias mergulhadas em caos elétrico. O terror noise urdido pelos demenciais Ben Chasny e Ethan Miller, acid twins munidos de guitarras siderais vertidas em geratriz de texturas abrasivas, a voz do segundo modulando entre o agonico, o visceral e o emotivo e catapultando-se ardidamente over the top no refrão escorrendo feito magma pelo canal auditivo, inundando o cérebro, um excitamente neuronial extremo - e é apenas a abertura, Dogwood Rust. Que já revela que há um novo mastodonte das baquetas, cria direta da tradição de brutalismo primitivo da percussão rock setentista, Utrillo Kushner. Aliás, nem sequer vale a pena comentar isoladamente cada membro da banda; são todos multinstrumentistas e bastante técnicos. As musicas contudo merecem algumas linhas de descrição; jaybird é uma correspondente atual do que fora Black Dog do Led Zeppelin (referência quase panfletária), Lucifer's Memory é a balada do disco, em sua evolução blues comovente, holly teeth reedita Blue Cheer em inflexão hardcore e por aí vai. O fecho do disco é a magistral hatched upon the age, de longe a melhor musica dos ultimos tempos.

Discaço, quanto mais se ouve, mais se gosta.

Cygnus

Back

BACK!!!! No more!

terça-feira, junho 20, 2006

Seleção Brasileira: Cavilações Pertinentes

O que leva o treinador Parreira a investir na estrábica convicção de manter dois avantes de pouca mobilidade no comando do ataque, excruciando nas tarefas de meio-campo Ronaldo Assis, sendo que ele é daqueles jogadores de capacidade decisiva nata quando alocado nas cercanias da área adversária? Será crença inabalável em suas teorias, ainda que faticamente não funcionem, ou inefável orgulho em reconhecer seu equivoco tático?

Analisemos, pois, a opção mister de Parreira: a manutenção de Adriano e Ronaldo Nazário. Ao que parece, ele conta com a presença destes jogadores para opilar o sistema defensivo do time adversário, de modo que sua saída de bola seja dificultada e, quando da posse de bola pela Seleção Brasileira, que abram-se espaços para a chegada de Kaka e Ronaldo Assis. Com a qualidade técnica desses dois jogadores, aliada ao poder de finalização dos dois avantes de área, Parreira depreende que, sendo um ou outro, sucessivamente municiados pelos articuladores de meia-cancha, os gols aconteçam.

Em teoria, com propriedade, o esquema elocubrado por Parreira não é equivocado. Funcionaria a contento, não fossem Nazário e Adriano centroavantes de oficio estanques, de pouca mobilidade. A movimentação de ambos é insuficiente para que junto com ela sejam arrastados os defensores. Assim, vigia-los torna-se tarefa de fácil execução. E o sistema defensivo pode dedicar-se, como reiteradamente vem ocorrendo, em anular, no todo ou quase, a articulação do meio campo, evitando a chegada da parte armadora do quadrado para complementar a jogada com o lado finalizador oposto. Desse modo, do meio para frente, fica engessado o time brasileiro.

Por outro lado, como ficaria o esquema, em se promovendo o ingresso dos dois jogadores mais credenciados para substituir um dos centroavantes – Robinho e Juninho?

Com Robinho, a melhora é sensível, mas não suficiente. O ataque ganha mais mobilidade, mas ainda se mantêm distantes os homens de meio campo. A meu ver, destarte, é Robinho um equivalente do Denílson de 2002, o jogador para entrar no segundo tempo, prender a bola, ou talvez, incrementar o poder ofensivo do ataque.

Já com Juninho em campo, enfim ganharíamos equilíbrio geral e robustez no meio. Pois, adiantando-se Ronaldo Assis, finalmente aquilo imaginado por Parreira, aconteceria de fato: Ronaldo Assis abriria espaços para a chegada de Kaka, ficando então 3 atacantes, dois deles de movimentação constante (Kaka e Ronaldo, com Kaka um pouco mais próximo do meio campo para dar início à armação da jogada de arremate), 3 homens de ofício meio-campista, Juninho, Zé Roberto e Emerson, dividindo de maneira mais igualitária labores de articulação e contenção. Ademais, são jogadores de supina qualidade técnica, boa capacidade de condução de bola, excelentes passadores e bons arrematadores. Teríamos, ao fim e ao cabo, um trator ofensivo de 5 jogadores, 4 deles de muita movimentação e dois deles também compactando o meio-campo ao lado de Emerson. Com efeito, tal escalação permitira diversas variações com o apoio dos alas. Nem entrarei no mérito de Cicinho merecer lugar na equipe; Cafu e Roberto Carlos têm qualidade e experiência, o que transmite tranqüilidade à equipe.


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Deveria já estar vacinado, mais ainda me surpreendo ante a obtusidade dos comentaristas esportivos da televisão. Todos eles, burros zurrando bobagens. A melhor delas é insistir na falta de qualidade técnica da Alemanha. Será que não passa por sua tessitura neuronial avariada o óbvio ululante? Que a qualidade técnica da Alemanha não é, principalmente, singular, mas coletiva? Que as boas individualidades do time trabalham de modo operário para que toda formação conjure um continuum coletivo de defesa e ataque? Que o que norteia o labor tático do time é a inefável objetividade e, para atingi - lá, a equipe trabalha de maneira individualmente eficiente, sem a necessidade do efeito e da plástica? Que é um time frio, calculista e mesmo sob condições adversas e adversários difíceis, insiste de maneira constante, até o apito final, em busca do tento que lhes sagrará vencedores? Que a Seleção Alemã é, tanto atavicamente, quanto pela qualidade de seus jogadores, um time monstruosamente abnegado, dificílimo de ser batido? E que, ao final, o futebol urdido pelo selecionado teutônico é vistoso e empolgante?

Não ocorre às tacitamente proclamadas sumidades esportivas brasileiras que nas terras germânicas se pratica o futebol segundo uma filosofia de jogo totalmente diversa da nossa?

Após o jogo de hoje, após o terceiro gol, advindo de fulminante contra-ataque, em que, entre defesa, meio-campo, ataque, até a finalização, apenas oito toques foram dados, sedimentou-se: a Alemanha é dos mais fortes candidatos ao título.


Cygnus

terça-feira, junho 13, 2006

Estréia apagada, mas VITORIOSA!

Brasil 1 x 0 Croácia

A despeito da inegável qualidade técnica da Seleção Brasileira, foi pífia a estréia do escrete verde-amarelo. Muito, por óbvio, se deve à ansiedade do primeiro jogo, a saliente falta de ritmo contra adversários mais aguerridos. Soma-se a isso o fator histórico; é já atávico ao selecionado nacional a tradição de um primeiro jogo ruim e sofrido.

Porém, a principal deficiência fica por conta da equivocada escalação de Parreira, cujo desequilíbrio escancarou-se com a partida de hoje. O intento estratégico do técnico era, através da presença de dois centroavantes, manter a defesa adversária ocupada em controlá-los, destarte contento os avanços dos laterais e abrindo espaço para a chegada dos articuladores do meio-campo. Contudo, logo após os primeiros dez minutos, quando a seleção da Croácia ainda acomodava-se em campo e o Brasil conseguiu algumas boas tramas ofensivas, a tática de Parreira fez água: Tanto Adriano, quanto Ronaldo Nazário, são jogadores estanques, de pouca mobilidade. Nazário, principalmente, inexistiu em campo. Adriano, malgrado tenha se esforçado, perde sua principal qualidade, a do giro rápido e capacidade de finalização, quando tem que sair da grande área e buscar o jogo. Assim, ruíram as intenções de Parreira; os dois avantes restaram inoperantes, a Croácia logrou superioridade numérica na meia-cancha, marcando com eficácia os articuladores ofensivos, que não conseguiam aproximação para acionar Nazário e Adriano, e sobrecarregando Emerson e Zé Roberto, obrigados a desdobrarem-se nos labores defensivos e ofensivos. Desse modo, esvaiu-se a capacidade dos meias brasileiros de imprimirem dinâmica e velocidade ao jogo.

Com o meio-campo dominado, a Croácia então se atirou ao ataque. Não é um time de grande brilho técnico e carece de maior organização tática quando da aproximação à grande área. Entretanto, derivadas do enfrentamento direto com a zaga, algumas boas chances foram criadas pelo time do leste europeu. Não estivessem Dida, Lúcio e Juan em tarde esplêndida, o gol croata seria inevitável. Os alas Cafu e Roberto Carlos estiveram mais empenhados na contenção do que no apoio e, embora tenham dado algum suporte no campo adversário, foram apenas regulares.

Assim desenvolveu-se a primeira etapa, com o Brasil coletivamente engessado e a Croácia tropeçando nas próprias limitações quando a zaga não dava conta. Restava ao Brasil a supina qualidade individual de alguns jogadores, principalmente Kaka e Ronaldo Assis. E por aí veio o gol da vitória: já no final dos quarenta e cinco minutos iniciais, Lúcio avançou com a bola dominada, rolou para Cafu que a conduziu até as cercanias da área croata quando então deu passe para Kaka no meio. Este, em rutilante jogada, livrou-se da marcação e, com esplêndida visão de jogo, atirou conscientemente no ângulo, marcando lindo gol.

Veio a segunda etapa, a Croácia ainda mais ameaçadora e os problemas coletivos do Brasil persistindo. O “quadrado mágico” teve desempenho ofensivo ordinário. A apatia de Ronaldo Assis era exasperante, Adriano maltratava a bola quando vinha buscá-la. Ronaldo Assis, excruciado pela dura marcação, ainda assim mostrou-se exuberante na distribuição de jogo, com passes precisos e tentativas verticais surpreendentes e criativas. Não obstante, esteve aquém das expectativas, bem como o excelente Kaka, ambos severamente vigiados pelos defensores croatas.

A coisa seguia nesse ritmo modorrento, a Croácia ameaçando, mas desvelando sua mediocridade e o Brasil sem ímpeto, amordaçado no meio-campo, sem criatividade. Então, finalmente, Parreira mudou: retirou o enfadonho Ronaldo Nazário, nitidamente gordo e sem vontade, promovendo a entrada de Robinho, com Adriano mais fixo na frente. Com onze homens em campo, finalmente, o Brasil pode equilibrar as ações e anular por completo a Croácia, mantendo a posse de bola no campo adversário e mantendo os croatas encolhidos contra sua própria área. Já era tarde, contudo: esgotados, os jogadores apenas administraram o resultado, sem ameaçar até o final.


Em suma: apesar da estréia fraca, o Brasil ganhou o jogo contra aquele que, supunha-se, seria o adversário mais qualificado. Ao longo das partidas, a Seleção há de adquirir maior ritmo e entrosamento; as melhoras, certamente virão. Mas cabe ressalva: contra adversários mais qualificados, se Parreira, teimosa e vaidosamente, insistir na presença de dois centroavantes, seremos derrotados. Juninho, mais que qualquer outro reserva, é o que tem as melhores credenciais para figurar como titular no lugar de Ronaldo Nazário.

Cygnus

sexta-feira, junho 09, 2006

Enfim, COPA!!!!!!!!!!!!!!!!!

“A Alemanha quer mesmo é ganhar na estréia”!

Oh céus, quem teria zurrado tamanha obviedade? Sim, ele, Malão Bueno, lá pelos 30 minutos da segunda etapa quando o placar do jogo de abertura da Copa do Mundo achava-se em 3x2 para os donos da casa. Será dos piores tormentos intelectuais submeter-se à “narração” do Malão durante o mês de junho. Entretanto, as alternativas não são melhores: ontem assistindo ao VT do treino da seleção brasileira durante a madrugada no canal a cabo SporTV, passei raiva diante do aluvião de bobagens perpetradas por repórteres e comentarias irritantemente obtusos e pedantes. Enfim, o que não tem remédio, remediado está.

Mas sigamos ao que realmente interessa, o futebol: pela partida realizada hoje, pode-se depreender que a Alemanha realizará grande campanha. Claro, seu futebol não é rutilante, daquele que arranca suspiros da torcida pelas jogadas de efeito ou beleza plástica dos lances. O futebol praticado pelo esquadrão ariano é de eficiência, posse de bola e senso coletivo in extremis. Atacando sempre em bloco, empurrando o adversário em direção à sua área, trocando passes com inteligência e mantendo a pelota nos pés no campo do adversário a maior parte do tempo, o time mostra muita organização tática e vigor, além de ser gélido; os jogadores jamais erram por emoção ou ansiedade. O time alemão não é urgente, não é vibrante, não entusiasma amantes de futebol arte. Mas conta com jogadores de satisfatória qualidade técnica e aplicados à filosofia do jogo coletivo. Destaques salientes à primeira vista são as passagens dos alas pelos dois lados do campo, a capacidade de finalização, a meia cancha consistente, inversões freqüentes de bola da direita para a esquerda e vice-versa, e a qualidade de vários bons jogadores, principalmente Schneider, articulador frio e inteligente, de passes precisos e cadencia de jogo constante, e Klose, excelente finalizador, com muita movimentação ofensiva e penetrações de perigo na área adversária.

Contudo, nem tudo são flores na seleção montada por Klinsmann. A defesa é terrivelmente frágil e mal disposta. Jogando em linha, sem o tino para deixar o ataque adversário em posição de impedimento, teve trabalho com o ataque costarriquenho, que foi eficaz marcando os dois gols que foram oferecidos pela escassez de chances criadas. Repito: a solidez do time alemão se erige quando estão com a bola nos pés. Sem ela, a esperança é na marcação na saída de bola; no confronto direto com a defesa, um bom ataque há de levar sempre vantagem.
Em suma, boa a estréia da Alemanha. Fez 4x2 em um adversário frágil, comandou o jogo e mostrou que pode ir longe. Como, aliás, é sua tradição.


Cygnus

terça-feira, maio 30, 2006

Contagem Regressiva para a Copa do Mundo

Sair do emprego trará de imediato uma vantagem: poderei assistir a Copa do Mundo quase na íntegra; assim sendo, inauguro hoje uma série de postagens sobre os jogos do Mundial dando destaque às principais equipes. Obviamente o Brasil merecerá de minha parte, atenção especial.

Infelizmente a época de Copa, afora as partidas, é bem irritante, com todo esse ufanismo besta, esse afã de saber quantos quilos o Nazário esta pesando, qual a cor da cueca de Ronaldo Assis, enfim, as fofocas sem importância. Acima de tudo, o pior dos suplícios será ter de se submeter ao chatíssimo Galvão Bueno, o mala-mor do Brasil durante a Copa, superando até mesmo Lula e seu séqüito de vilões ou Júlia Assunção.

Hoje a seleção brasileira fez o primeiro amistoso preparatório antes do início do Mundial, contra o inexpressivo time suíço do Lucerna. Apesar da fragilidade do adversário, o escrete canarinho cumpriu a demanda mínima que lhe era imposta: aplicou retumbante goleada sobre o adversário ao natural.

O que se pôde concluir sobre esse jogo afinal? A primeira coisa que chamou a atenção foi que, mesmo com poucos dias de treinamento, a equipe já adquiriu contornos de entrosamento e espírito coletivo. Nitidamente evitando desgaste desnecessário, fez a bola rolar com consciência e qualidade, errando poucos passes e articulando com objetividade. Kaká já deu mostras de que poderá ser um grande destaque, movimentando-se por todos os setores do ataque, chegando de trás, armando, concluindo, entregando-se com abnegação às tarefas de contenção na saída de bola adversária, enfim, um refinado armador ofensivo. Particularmente, faz-se mister salientar o quão interessante foram as alternâncias de posicionamento entre ele e Ronaldo Assis, o que certamente dificultará a marcação adversária na Copa. As ultrapassagens em velocidade dos alas também assomam-se como importante recurso à ser explorado pelo selecionado de Parreira. No mais, o restante do time se portou a contento, Adriano e Ronaldo Nazário fizeram gols, Lúcio chegou duas ou três vezes ao ataque como elemento surpresa, Ronaldo Assis não brilhou mas deu assistências precisas, Zé Roberto juntando-se ao ataque articulou com qualidade e Emerson, quando exigido, saiu-se bem nos labores defensivos e no primeiro passa ao ataque.

Se ofensivamente a seleção não demonstra dificuldades, defensivamente problemas foram detectados, principalmente no meio-campo, que diversas vezes foi ocupado por jogadores de azul sem nenhum brasileiro nas cercanias. Isso fez com que a equipe suíça tenha partido algumas vezes ao ataque com certo perigo, inclusive criando duas chances claras de gol, uma em cada tempo, que só pararam em Dida. Acredito que Parreira deveria revisar sua convicção em manter o “quadrado mágico” (utilizando a exagerada expressão midiática) em prol de uma escalação de maior equilíbrio e consistência em todos os setores. Juninho Pernambucano muniu-se de credenciais para ser titular, tanto pela atuação de hoje, quanto pelo futebol eficiente e objetivo que vem demonstrando ao longo de suas temporadas européias. A questão é: quem poderia sair para que sua entrada fosse promovida? Não Emerson, Kaká muito menos. Falar em prescindir de Ronaldo Assis, indubitavelmente o melhor do mundo, é heresia. Resta Zé Roberto. Mas destarte continuaria sem solução o desequilíbrio do setor. Talvez a solução fosse retirar um dos dois atacantes, Ronaldo ou Adriano, adiantar Ronaldo Assis e formar um quadrado de meio campo com Emérson, Zé Roberto, Kaká e Juninho, com Ronaldo Assis como quinto homem e segundo atacante (o famoso “1” de Zagallo, instaurando uma espécie de 4-4-1-1). Desse modo, devido à necessidade em marcar-se Ronaldo Assis de cima e não descuidar de qualquer um dos centroavantes que estejam em campo, abririam-se espaços para os avanços de Kaka e, alternadamente, Juninho e Zé Roberto, bem como daria liberdade para os avanços em velocidade dos alas. Ainda, não nasceu defensor capaz de anular de todo jogadores da cepa de Ronaldo Assis, por mais esforço que o certamente malfadado beque imprima.
Tudo são apenas confabulações; Parreira está irredutível em sua escalação inicial e ela não é, absolutamente, equivocada em teoria. Espera-se, contudo, que o poder ofensivo de jogadores desse quilate seja capaz de anular quaisquer problemas que o sistema defensivo porventura venha a enfrentar. Mas os augúrios para a seleção Brasileira são decerto dos mais rutilantes.


Cygnus

Copa x Trabalho

Agora, em época de Copa do Mundo, instala-se no seio da sociedade a velha polêmica: afinal, as instituições capitalistas e sociais devem interromper seu funcionamento, liberar seus funcionários para audiência aos jogos do Brasil?

Se estivessem investidos do poder necessário para impedir o êxodo de seus subalternos às TVs espalhadas pelas cidades, certamente não haveria polêmica; os empresários simplesmente fariam uso desse poder para manter os trabalhadores atrelados ao aparelho produtivo. Por analogia, o mesmo seria feito nas instituições sociais.

Como não há possibilidade da imposição compulsória de vilipêndio aos jogos do Brasil, a solução para que se mantenha o aparato de produção em funcionamento se esvai para o plano ideológico, de modo que seja sedimentada nas mentes dos empregados que é correto impedi-los de prestar assistência às partidas da Seleção, do mesmo modo que é feito quando da exigência de que um trabalhador abdique de seu descanso semanal em prol de prazos e exigências, laborando num domingo sem receber remuneração compensatória por seu sacrifício e boa vontade.

Os trabalhadores já são por demais explorados pelo sistema à eles imposto, suas necessidades são o combustível que queima nos motores do capitalismo, e o capitalismo se encarrega de manter tais necessidades sempre pendentes, como sustentáculo de sua existência nesse corte selvagem que foi implementado e é, por seus controladores, desenvolvido.

O que são as empresas sem os trabalhadores, senão meros amontoados de concreto e metal? O que move o funcionamento das coisas senão as pessoas? Pois os senhores do capital promovem verdadeira faxina mental em seus empregados, levando-os a crer que eles são prescindíveis. Não é verdade, por uma simples razão: as coisas de criação humana ao homem pertencem, não o contrário. Todo o sistema é criação do homem, está a seu serviço para prover-lhe bem estar. Não é o homem a ser tomado como propriedade do abstrato leviatã do sistema. Entretanto, a ordem das coisas, por artificialismo ideológico fomentado ao longo de gerações e séculos, foi invertida e tornou sem limite o acumulo de capital, propriedade e disposição de vidas travestidas em mão-de-obra mal remunerada.
Diante disso, me parece claro qual a resposta na polêmica: simplesmente o ponto facultativo, aqueles que desejarem assistir aos jogos na suas casas, em companhia de seus filhos estão livres para fazê-lo; aqueles que crêem na força inquebrantável do comprometimento assumido com seu labor, que trabalhem normalmente. O que não é justo é que se escamoteie essa liberdade de escolha nas sombras de uma discussão cuja ideologia é fátua.


Cygnus

segunda-feira, maio 22, 2006

Dolorosa derrota! :-(

Sad Monday... :-(

Confesso a vós que a derrota do Internacional, sábado, no Beira-Rio, ainda não foi digerida. Permaneço ainda ruminando o resultado, os ecos da trágica goleada teimosamente voltando à superfície dos sentimentos. O que, afinal de contas, teria acontecido ao Internacional?

Antes que alguém indique o que parece óbvio, o time mais qualificado entrando com soberba para enfrentar o de menos recursos técnicos, o famoso “salto-alto”, desde já afirmo que esse erro psicológico, tão comum no futebol, inexistiu. O resultado deu-se mais por méritos do Figueirense do que deméritos do Internacional, malgrado esses tenham ocorrido e contribuído para decretar o assombroso escore final.

Comecemos então pelos méritos da equipe catarinense: defesa sólida em todos os setores, contendo os avanços do Inter pelas alas e engessando a articulação de meio-campo da equipe gaúcha; sentimento coletivo, o que se mostrou pela excelente distribuição da equipe em campo; marcação implacável e incansável; compactação robusta em seu campo de defesa aliada a saídas velocíssimas em contra-ataque, chegando à frente por vezes com quatro ou cinco jogadores; inacreditável aproveitamento ofensivo; a habilidade de Soares e Schwenk, já sagrados como gratas revelações desse Campeonato Brasileiro que já deixa de ser incipiente.

E os deméritos do Internacional? Eis aí um mister difícil de se definir, afinal Abel Braga optou por uma escalação equilibrada em seu sistema tático favorito, o 4-4-2. A única ausência questionável foi a de Índio, mas o treinador do Inter preferiu contar com o entrosamento entre Bolívar e Fabiano Eller, bem como valorizar o lateral Ceará, cuja posição de ofício e pela qual ele está no Internacional é justamente a ala. Era isso ou repetir o 3-5-2, de magníficos resultados, tanto de escore como de mecânica de jogo, contra o São Paulo. Pois a única diferença nos dois times foi a abdicação de mais um zagueiro para a entrada de Fernandão no meio-campo. Em teoria a escolha de Abel me pareceu acertada, afinal Ceará não oferece a mesma capacidade que Elder Granja no apoio ao ataque e Fernandão aliado à boa fase de Alex decerto garantiria qualidade criativa ao meio-campo do Inter. Resguardando a defesa continuava a dupla de volantes Fabinho e Edinho e, no ataque, Rafael Sobis e Renteria, seguramente a melhor opção ofensiva atualmente no Inter. E, realmente, o ataque funcionou a contento, marcando dois gols e finalizando outras tantas vezes, contra uma defesa robusta. Fernandão chegando de trás conseguiu, enfim, exercer sua capacidade de finalização, tanto de cabeça quanto com os pés e, embora sua participação na articulação não tenha sido das mais brilhantes, aquém da expectativa que se tinha, ele foi capaz de trocar passes com qualidade e inteligência. Destarte, conclui-se que o que levou à derrota, humilhante em seu escore e no que foi visto no jogo, foi a defesa, desde muito mostrando-se como o setor mais sensível e deficiente do time. O jogo aéreo novamente foi problema crônico e, no chão, tanto Eller quanto Bolívar estavam perdidos, mal posicionados e em jornada extremamente negativa. Bolívar, principalmente, mostrou-se reiteradas vezes desatento e inseguro. Soma-se à má jornada da zaga a deficiente proteção á defesa, Edinho mal, Fabinho também em dia nefasto, e tem-se a resposta que se procurava para explicar a derrota. Como faltou apuro tático defensivo ao Inter no sábado! Reiteradas vezes ambos volantes subiam ao ataque, perdiam a bola e deixavam a defesa em maus lençóis pelo meio. Nas alas, o mesmo problema se repetiu, com partidas simultâneas de Ceará e Jorge Wagner (novamente jogando bem, mas não tanto como nas últimas partidas). Assim sobravam espaços para que a equipe de Adílson Batista jogasse com liberdade e velocidade no campo do Inter, marcando quatro tentos e perdendo mais duas chances claríssimas de gol, que por milagre não foram convertidos.

Concretizou-se novamente a tradicional maldição que recaí sobre o Internacional sempre que este tem a chance de chegar à liderança. Também reavivou-se a tradição de dificuldades contra os coadjuvantes do campeonato. Espero que as lições dessa derrota tenham sido assimiladas e que os jogadores não mais permitam que tragédias semelhantes aconteçam novamente.

Cygnus

sábado, maio 13, 2006

ARS MUSICA I

Consoante a proposta do blog em apresentar discos de todo exilados das sendas mainstream, inauguro uma série de postagens sobre discos essenciais para que se ampliem os horizontes da compreensão musical, através de obras cujo ethos seja, primordialmente, a arte e a capacidade de induzir estados de letargia onírica no apreciador.

Isto posto, falemos agora dessa portentosa obra que trago a vós, meus áticos leitores: o magnífico Ash Ra Tempel, debut da homônima banda teutônica. Cá estou eu delirante ante a audição desse disco, cavilando de que modo seria possível transpor para o terreno das palavras a sensação provocada pela sonoridade do álbum em tela. Pois bem, tentarei pelo viés menos racional, sendo espontâneo, malgrado o texto perca em riqueza literária.

Pois então, de que se trata o mírifico álbum? Basicamente de uma sucessão de soundscapes alucinógenas, uma alquimia vertiginosa entre guitarras psicodélicas, improvisações avant jazz e sintetizadores em modulações ambient space. São tão somente duas canções: Amboss e Traummaschine, ambas de longa duração, abrindo espaço para toda sorte de experimentalismos e policromias sônicas que desejassem os músicos levar a efeito. Alicerçadas em cadências mesmerizantes de progressão dramática e intensidade infrenes, as canções são pontuadas por explosivas emanações de guitarra, densas e arrebatadoras, drones sólidos e esmagadores, em contraste com momentos diáfanos de minimalismo plácido e cativante. Ainda, o silêncio se faz presente nos mais oportunos momentos, graças à perspicácia dos músicos em manter os rumos tomados pelas canções em constante suspense. Ambas as músicas se contrapõe ao mesmo tempo em que se complementam: enquanto Amboss funciona - com sua construção iniciada em uma espécie de bruma lisérgica e plácida remetida de maneira vigorosa e constante rumo a um apogeu freakout de guitarras tonitruantes e petardos percussivos – como uma espécie de introdução ao multiverso sônico instaurado pelos alemães, Traummaschine é o réquiem, tomando como início o final de Amboss e gradualmente tornando-se trovejante; esvaindo-se então numa placidez etérea e hipnotizante.


Insomma, um disco digno de levar o epíteto de genial!

Cygnus