Brasil 1 x 0 Croácia
A despeito da inegável qualidade técnica da Seleção Brasileira, foi pífia a estréia do escrete verde-amarelo. Muito, por óbvio, se deve à ansiedade do primeiro jogo, a saliente falta de ritmo contra adversários mais aguerridos. Soma-se a isso o fator histórico; é já atávico ao selecionado nacional a tradição de um primeiro jogo ruim e sofrido.
Porém, a principal deficiência fica por conta da equivocada escalação de Parreira, cujo desequilíbrio escancarou-se com a partida de hoje. O intento estratégico do técnico era, através da presença de dois centroavantes, manter a defesa adversária ocupada em controlá-los, destarte contento os avanços dos laterais e abrindo espaço para a chegada dos articuladores do meio-campo. Contudo, logo após os primeiros dez minutos, quando a seleção da Croácia ainda acomodava-se em campo e o Brasil conseguiu algumas boas tramas ofensivas, a tática de Parreira fez água: Tanto Adriano, quanto Ronaldo Nazário, são jogadores estanques, de pouca mobilidade. Nazário, principalmente, inexistiu em campo. Adriano, malgrado tenha se esforçado, perde sua principal qualidade, a do giro rápido e capacidade de finalização, quando tem que sair da grande área e buscar o jogo. Assim, ruíram as intenções de Parreira; os dois avantes restaram inoperantes, a Croácia logrou superioridade numérica na meia-cancha, marcando com eficácia os articuladores ofensivos, que não conseguiam aproximação para acionar Nazário e Adriano, e sobrecarregando Emerson e Zé Roberto, obrigados a desdobrarem-se nos labores defensivos e ofensivos. Desse modo, esvaiu-se a capacidade dos meias brasileiros de imprimirem dinâmica e velocidade ao jogo.
Com o meio-campo dominado, a Croácia então se atirou ao ataque. Não é um time de grande brilho técnico e carece de maior organização tática quando da aproximação à grande área. Entretanto, derivadas do enfrentamento direto com a zaga, algumas boas chances foram criadas pelo time do leste europeu. Não estivessem Dida, Lúcio e Juan em tarde esplêndida, o gol croata seria inevitável. Os alas Cafu e Roberto Carlos estiveram mais empenhados na contenção do que no apoio e, embora tenham dado algum suporte no campo adversário, foram apenas regulares.
Assim desenvolveu-se a primeira etapa, com o Brasil coletivamente engessado e a Croácia tropeçando nas próprias limitações quando a zaga não dava conta. Restava ao Brasil a supina qualidade individual de alguns jogadores, principalmente Kaka e Ronaldo Assis. E por aí veio o gol da vitória: já no final dos quarenta e cinco minutos iniciais, Lúcio avançou com a bola dominada, rolou para Cafu que a conduziu até as cercanias da área croata quando então deu passe para Kaka no meio. Este, em rutilante jogada, livrou-se da marcação e, com esplêndida visão de jogo, atirou conscientemente no ângulo, marcando lindo gol.
Veio a segunda etapa, a Croácia ainda mais ameaçadora e os problemas coletivos do Brasil persistindo. O “quadrado mágico” teve desempenho ofensivo ordinário. A apatia de Ronaldo Assis era exasperante, Adriano maltratava a bola quando vinha buscá-la. Ronaldo Assis, excruciado pela dura marcação, ainda assim mostrou-se exuberante na distribuição de jogo, com passes precisos e tentativas verticais surpreendentes e criativas. Não obstante, esteve aquém das expectativas, bem como o excelente Kaka, ambos severamente vigiados pelos defensores croatas.
A coisa seguia nesse ritmo modorrento, a Croácia ameaçando, mas desvelando sua mediocridade e o Brasil sem ímpeto, amordaçado no meio-campo, sem criatividade. Então, finalmente, Parreira mudou: retirou o enfadonho Ronaldo Nazário, nitidamente gordo e sem vontade, promovendo a entrada de Robinho, com Adriano mais fixo na frente. Com onze homens em campo, finalmente, o Brasil pode equilibrar as ações e anular por completo a Croácia, mantendo a posse de bola no campo adversário e mantendo os croatas encolhidos contra sua própria área. Já era tarde, contudo: esgotados, os jogadores apenas administraram o resultado, sem ameaçar até o final.
Em suma: apesar da estréia fraca, o Brasil ganhou o jogo contra aquele que, supunha-se, seria o adversário mais qualificado. Ao longo das partidas, a Seleção há de adquirir maior ritmo e entrosamento; as melhoras, certamente virão. Mas cabe ressalva: contra adversários mais qualificados, se Parreira, teimosa e vaidosamente, insistir na presença de dois centroavantes, seremos derrotados. Juninho, mais que qualquer outro reserva, é o que tem as melhores credenciais para figurar como titular no lugar de Ronaldo Nazário.
Cygnus
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