terça-feira, junho 20, 2006

Seleção Brasileira: Cavilações Pertinentes

O que leva o treinador Parreira a investir na estrábica convicção de manter dois avantes de pouca mobilidade no comando do ataque, excruciando nas tarefas de meio-campo Ronaldo Assis, sendo que ele é daqueles jogadores de capacidade decisiva nata quando alocado nas cercanias da área adversária? Será crença inabalável em suas teorias, ainda que faticamente não funcionem, ou inefável orgulho em reconhecer seu equivoco tático?

Analisemos, pois, a opção mister de Parreira: a manutenção de Adriano e Ronaldo Nazário. Ao que parece, ele conta com a presença destes jogadores para opilar o sistema defensivo do time adversário, de modo que sua saída de bola seja dificultada e, quando da posse de bola pela Seleção Brasileira, que abram-se espaços para a chegada de Kaka e Ronaldo Assis. Com a qualidade técnica desses dois jogadores, aliada ao poder de finalização dos dois avantes de área, Parreira depreende que, sendo um ou outro, sucessivamente municiados pelos articuladores de meia-cancha, os gols aconteçam.

Em teoria, com propriedade, o esquema elocubrado por Parreira não é equivocado. Funcionaria a contento, não fossem Nazário e Adriano centroavantes de oficio estanques, de pouca mobilidade. A movimentação de ambos é insuficiente para que junto com ela sejam arrastados os defensores. Assim, vigia-los torna-se tarefa de fácil execução. E o sistema defensivo pode dedicar-se, como reiteradamente vem ocorrendo, em anular, no todo ou quase, a articulação do meio campo, evitando a chegada da parte armadora do quadrado para complementar a jogada com o lado finalizador oposto. Desse modo, do meio para frente, fica engessado o time brasileiro.

Por outro lado, como ficaria o esquema, em se promovendo o ingresso dos dois jogadores mais credenciados para substituir um dos centroavantes – Robinho e Juninho?

Com Robinho, a melhora é sensível, mas não suficiente. O ataque ganha mais mobilidade, mas ainda se mantêm distantes os homens de meio campo. A meu ver, destarte, é Robinho um equivalente do Denílson de 2002, o jogador para entrar no segundo tempo, prender a bola, ou talvez, incrementar o poder ofensivo do ataque.

Já com Juninho em campo, enfim ganharíamos equilíbrio geral e robustez no meio. Pois, adiantando-se Ronaldo Assis, finalmente aquilo imaginado por Parreira, aconteceria de fato: Ronaldo Assis abriria espaços para a chegada de Kaka, ficando então 3 atacantes, dois deles de movimentação constante (Kaka e Ronaldo, com Kaka um pouco mais próximo do meio campo para dar início à armação da jogada de arremate), 3 homens de ofício meio-campista, Juninho, Zé Roberto e Emerson, dividindo de maneira mais igualitária labores de articulação e contenção. Ademais, são jogadores de supina qualidade técnica, boa capacidade de condução de bola, excelentes passadores e bons arrematadores. Teríamos, ao fim e ao cabo, um trator ofensivo de 5 jogadores, 4 deles de muita movimentação e dois deles também compactando o meio-campo ao lado de Emerson. Com efeito, tal escalação permitira diversas variações com o apoio dos alas. Nem entrarei no mérito de Cicinho merecer lugar na equipe; Cafu e Roberto Carlos têm qualidade e experiência, o que transmite tranqüilidade à equipe.


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Deveria já estar vacinado, mais ainda me surpreendo ante a obtusidade dos comentaristas esportivos da televisão. Todos eles, burros zurrando bobagens. A melhor delas é insistir na falta de qualidade técnica da Alemanha. Será que não passa por sua tessitura neuronial avariada o óbvio ululante? Que a qualidade técnica da Alemanha não é, principalmente, singular, mas coletiva? Que as boas individualidades do time trabalham de modo operário para que toda formação conjure um continuum coletivo de defesa e ataque? Que o que norteia o labor tático do time é a inefável objetividade e, para atingi - lá, a equipe trabalha de maneira individualmente eficiente, sem a necessidade do efeito e da plástica? Que é um time frio, calculista e mesmo sob condições adversas e adversários difíceis, insiste de maneira constante, até o apito final, em busca do tento que lhes sagrará vencedores? Que a Seleção Alemã é, tanto atavicamente, quanto pela qualidade de seus jogadores, um time monstruosamente abnegado, dificílimo de ser batido? E que, ao final, o futebol urdido pelo selecionado teutônico é vistoso e empolgante?

Não ocorre às tacitamente proclamadas sumidades esportivas brasileiras que nas terras germânicas se pratica o futebol segundo uma filosofia de jogo totalmente diversa da nossa?

Após o jogo de hoje, após o terceiro gol, advindo de fulminante contra-ataque, em que, entre defesa, meio-campo, ataque, até a finalização, apenas oito toques foram dados, sedimentou-se: a Alemanha é dos mais fortes candidatos ao título.


Cygnus

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