terça-feira, maio 02, 2006

Franz Kafka Vol. 1

Epílogo
Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883, cidade que durante todos os 40 anos da vida do escritor pertenceu à monarquia austro-húngara.Filho de um abastado comerciante judeu, Kafka cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã.Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico.Esse híbrido de ironia e lucidez aparece na maioria dos textos de Kafka.Suas obras também conseguem formalizar e abrigar leituras totalmente relacionadas com a condição do ser humano moderno. O olhar kafkiano é direcionado para coisas como a opressão burocrática das instituições, a "justiça" e a fragilidade do homem comum frente a problemas cotidianos.

Para ler Kafka são necessários alguns cuidados especiais, entre eles, contar com uma certa atenção à maneira com que toda obra se constrói, principalmente seus períodos; estar sempre consciente de que toda a criação literária de Kafka foi dolorida, feita com o intuito de não parecer bonita, de ser, principalmente, uma obra baseada na dor; ficar atento a todos os detalhes do texto, pois em Kafka, até as imperfeições são propositais, ou seja, segundo Theodor Adorno, até "as deformações em Kafka são precisas".Durante sua vida, Kafka nunca conseguiu atingir grande fama com seus livros, porém, algum tempo depois de sua morte, no dia 3 de junho de 1924, em um sanatório perto de Viena, onde internara-se por causa de sua tuberculose, sua obra literária atingiria enorme influência sobre as pessoas, passando a ser cultuada por leitores de quase todo o planeta.

A seguir, uma amostra do trabalho de Franz Kafka, a parábola Diante da Lei, bem como um exercício de interpretação da mesma, esse de minha própria lavra.


Diante da Lei
Franz Kafka

Diante da Lei há um guarda. Um camponês apresenta-se diante deste guarda, e solicita que lhe permita entrar na Lei. Mas o guarda responde que por enquanto não pode deixá-lo entrar. O homem reflete, e pergunta se mais tarde o deixarão entrar. “É possível” , disse o porteiro, “mas não agora”. A porta que dá para a Lei está aberta, como de costume; quando o guarda se põe de lado, o homem inclina-se para espiar. O guarda vê isso, ri-se e lhe diz: “Se tão grande é o teu desejo, experimenta entrar apesar de minha proibição. Mas lembra-te de que sou poderoso. Eu sou somente o último dos guardas. Entre os salões também existem guardas, cada qual mais poderoso que o outro. Já o terceiro guarda é tão terrível que não posso suportar seu aspecto”. O camponês não havia previsto estas dificuldades; a Lei deveria ser sempre acessível para todos, pensa ele, mas ao observar o guarda, com seu abrigo de pele, seu nariz grande e como de águia, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta. Ali espera dias e anos. Tenta infinitas vezes entrar, e cansa ao guarda com suas súplicas. Com freqüência o guarda mantém com ele breves palestras, faz-lhe perguntas sobre seu país, e sobre muitas outras coisas; mas são perguntas indiferentes, como as dos grandes senhores, e para terminar, sempre lhe repete que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se abasteceu de muitas coisas para a viagem, sacrifica tudo, por mais valioso que seja, para subornar o guarda. Este aceita tudo, com efeito, mas lhe diz: “Aceito-o para que não julgues ter omitido algum esforço”. Durante esses longos anos, o homem observa quase continuamente o guarda: esquece-se dos outros, e parece-lhe que este é o único obstáculo que o separa da Lei. Maldiz sua má sorte, durante os primeiros anos temerariamente e em voz alta; mais tarde, à medida que envelhece, apenas murmura para si. Retorna à infância, e, como em sua longa contemplação do guarda, chegou a conhecer até as pulgas de seu abrigo de pele, também suplica às pulgas que o ajudem e convençam ao guarda. Finalmente, sua vista enfraquece-se, e já não sabe se realmente há menos luz, ou se apenas o enganam seus olhos. Mas em meio à obscuridade distingue um resplendor, que surge inextinguível da porta da Lei. Já lhe resta pouco tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências desses longos anos se confundem em sua mente em uma só pergunta, que até agora não formulou. Faz sinais ao guarda para que se aproxime, já que o rigor da morte endurece seu corpo. O guarda vê-se obrigado a baixar-se muito para falar com ele, porque a disparidade de estaturas entre ambos aumentou bastante com o tempo, para detrimento do camponês. “Que queres saber agora?”, pergunta o guarda. “És insaciável”. “Todos se esforçam para chegar à Lei”, diz o homem ; “como é possível então que durante tantos anos ninguém mais do que eu pretendesse entrar?”. O guarda compreende que o homem já está para morrer e, para que seus desfalecentes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz atroadora: “Ninguém podia pretender isso, porque esta entrada era somente para ti. Agora vou fechá-la”.
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A parábola A Lei conjura de maneira sintética todas as características de Franz Kafka como escritor. Ali se pode encontrar desde a miríade de sentimentos induzida pela estética do autor, bem como a confluência de linhas de fuga interpretativas que ele sempre propõe em seus escritos.Em minha singela opinião, apesar de percebido como realista, por fazer uso de características do estilo, Kafka é, antes de tudo, um expressionista, um escritor extremamente subjetivo. Suas obras estão sempre imbuídas de atmosferas labirínticas e sufocantes, em que o porquê da sucessão de eventos, carregados de opressão e surrealismo, permanece sempre pendente, como a ser revelado de maneira abrupta; não obstante, ao final da leitura, mantém-se em aberto, deixando o leitor à vontade para tecer sua própria interpretação e assimilar o significado da maneira que melhor lhe aprouver. Entretanto, a essência da construção literária kafkiana é sempre a mesma, com sutis variações: a confusão do homem singular ante a forças de carma antagônico que assomam-se esmagadoras e inquebrantáveis, arrastando o indivíduo em uma espiral caótica em que sua essência é dele subtraída em prol de uma alienação coletiva que mantém a ordem de todas as coisas. As correlações de força-submissão entre dominantes e dominados, com efeito, também se fazem presentes, de modo ao mesmo tempo denso e minimalista.

O que se pode depreender de A Lei? Antes de tudo, faz-se mister definir o que é, afinal A Lei, no contexto da parábola. E aí já começa a instaurar-se o multiverso interpretativo urdido por Kafka. A Lei, destarte, poderia ser a lei social que rege um grupo pequeno de privilegiados, vilipendiando todos aqueles menos agraciados pela sorte que sob sua égide também queiram ser guarnecidos em seus direitos. Poderia tão somente ser interpretada como uma crítica a burocracia da lei, que dificulta, quando não impede, o acesso do homem comum a ela. Nesse caso, os guardiões erigem-se como as diversas e gradualmente mais caóticas, como um leviatã de formalismo ininteligível ao comum, instâncias. Poderia ser, por que não, a Lei de Deus? Nesse caso, por que a Lei de Deus recusa-se a aceitar o camponês? Não teria o camponês, diante das dificuldades, se acovardado e desistindo de chegar a Ele, preferindo ficar nas trevas e tentando entender Deus através de um intermediário – o primeiro guardião, um sacerdote? Desse modo, a parábola transfigura-se como crítica ao clero, como se este estivesse encarregado de sonegar a verdadeira essência de Deus ao homem, a fim de mantê-lo escravo, ao invés, como apregoam, de libertar-lhe dos pecados materiais. Uma gama de outras formas interpretativas pode advir, e muito da personalidade e/ou do estado de espírito do leitor nelas influem.

Entender o significado da Lei e do Guardião, seja qual for linha de escape subjetivo assumida pelo leitor é imprescindível para que se entenda todo o resto. Observe-se a seguinte passagem: “(...) a Lei deveria ser sempre acessível para todos, pensa ele, mas ao observar o guarda, com seu abrigo de pele, seu nariz grande e como de águia, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta.” . Mesmo sendo um camponês humilde, algo em seu íntimo lhe diz que aquela situação, a inacessibilidade da Lei, não é, de forma alguma, justa. Entretanto, a aparência imponente e ameaçadora do guarda lhe intimida, e de maneira tão vigorosa que ele submete-se a essa intimidação, preservando assim, sua existência. Ao mesmo tempo em que ele protege sua vida, ele a sonega, preferindo o vazio da ignorância ao perigo e recompensa do conhecimento encerrado na Lei, como o fazem os homens diante da vida e da dificuldade. Também é somente uma linha interpretativa, tão singular para mim como poderia ser diversa para outrem. Entretanto, talvez aí haja a única passagem que conduza a uma conclusão consensual, qualquer seja a assimilação diversa: toda essa passagem condensa a figura do MEDO e as escolhas que o homem faz diante dele. Até mesmo os detalhes descritivos da aparência do guarda, a pele, a barba de tártaro, são passíveis de subjetivação, em cada um desses minimais aspectos. Mas não irei me deter neles, ao menos na brevidade desse pedaço d’escrita, pois há misteres mais relevantes que demandam atenção. Quando, por exemplo, o guardião se apieda do camponês e lhe oferece um banquinho para que ele sente-se e espere: deste simples gesto, no contexto da parábola, também brotam as mais variadas maneiras de interpretação, mas, de maneira mais simplista, o banquinho configura-se numa compensação miserável pela submissão do camponês àquilo que lhe é imposto: garante-lhe um mínimo de conforto, porém o mantém estagnado, preso ao banquinho. Também a figura do guardião, ao dar-lhe o banquinho para que ele espere e lhe afirmando reiteradas vezes que ele ainda não está pronto, confunde-se, de certa maneira com uma figura paternal, que para manter-se protetora e detentora de poder sobre o filho, oferece-lhe ao mesmo tempo em que lhe castra a determinação.
Outras passagens mereceriam análise, mas, mesmo à contragosto, para manter a brevidade do texto, passo ao largo delas rumo à apoteose final: “como é possível então que durante tantos anos ninguém mais do que eu pretendesse entrar?”. O guarda compreende que o homem já está para morrer e, para que seus desfalecentes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz atroadora: “Ninguém podia pretender isso, porque esta entrada era somente para ti. Agora vou fechá-la”. Aí Kafka escancara sua exuberante genialidade. Todas as interpretações as quais procurei dar forma acabaram entremeando-se, de modo que ao final, restou uma colagem perneta e confusa, buscando unir cada uma das linhas de fuga num única síntese. Ao mesmo tempo em que explica, o final, de certa forma também destrói as interpretações posteriores e causa ingente inquietação no leitor. Deixo, pois, a cada um, interpretar, à moda kafkiana, da maneira que melhor achar adequada.
Cygnus

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