As pessoas têm uma relação de profunda hipocrisia com sua sexualidade. É um sumário de neuroses induzidas por valores morais absurdos que negam a essência sexual do ser humano. Uma auto-censura forjada artificialmente sufoca toda genuína manifestação da sexualidade, que acaba vilipendiada de maneira vulgar no cotidiano e a ela só é dada vazão no âmbito particular, onde toda sorte de taras e fetiches são levadas a efeito. Por óbvio, a prática sexual deve, sim, restringir-se à esfera pessoal, mas apenas por uma questão de maior envolvimento da pessoa com sua sexualidade, submersão total ao jogo sexual, sem a interferência do mundo externo e não, como é visto hodiernamente, que o sexo seja algo a ser escondido. Algumas das taras e fetiches são absolutamente sadias; outras, como a ominosa e doentia pedofilia, altamente nocivas e devem ser combatidas com todas as forças pela sociedade. Mas aqui não estão em questão as diferentes práticas sexuais e sim o ethos da sexualidade e a maneira hipócrita como ele é encarado na sociedade, comportamento que chega às raias da patologia e, por vezes, transpõe esse limite.
Peguemos dois exemplos recentes, que foram amplamente destacados pelos veículos de comunicação: a jovem F.F., da cidade paulistana de Pompéia, cujas fotos em que ela aparece fazendo sexo com dois parceiros foram divulgadas pela internet; e Bruna Surfistinha.
Após a divulgação das malfadadas fotos, F.F. sofreu tenebrosas humilhações perpetradas pelos estudantes da faculdade de Direito cursada por ela. Foi forçada a evadir-se do local sob proteção policial, pois a turba enfurecida dava mostras de que partiria para a agressão física, tamanho foi o ódio que as imagens provocaram em seus colegas, que até poucas horas atrás, lhe eram companheiros amistosos. Para defender-se (como se algum crime tivesse cometido), apressou-se em declarar que as tais fotos eram falsas, montagens engendradas por um pérfido rapaz com quem ela recusara-se, de pleno direito, a relacionar-se. Pois bem, no dia em que as fotos foram espraiadas pela rede, acessei por acaso um link de sacanagem que me foi enviado, donde constavam as imagens. Sim, eu acessei as fotos. Sim, eu fiquei excitado com elas. Quem não ficaria? O vouyerismo é das taras mais genuínas da sexualidade humana; nesse caso específico a excitação era ainda maior por tratar-se de fotos em que o sexo era espontâneo e a satisfação dos praticantes, verdadeira. Com todo respeito ao expediente defensivo de F.F. as fotos não são, em absoluto, montagens. Na remota hipótese de que sejam, é por obra de meticuloso e competentíssimo artista gráfico, que certamente não faria tal serviço por meia dúzia de tostões. Mas isso não é o mais importante. O que causa repulsa, em qualquer pessoa de mentalidade mais aberta, foi a reação de virulenta hipocrisia que as imagens ensejaram na grande maioria das pessoas. F.F. tão somente levou a cabo dois dos mais recorrentes fetiches: fazer sexo a três e exibir-se nessa situação, de comum acordo e plena confiança, aos dois rapazes que a fotografaram. Porém, o tratamento a ela dispensado foi medonho. F.F., a meu ver, despertou a ira invejosa das pessoas que, sem ter, como ela teve, coragem de dar-se o direito de obter prazer sexual da forma que lhe apraz, acorreram céleres a escarnecê-la. Outra manifestação comum, publicada em listas de discussão, foi que F.F. “não pensou em seus pais e na vergonha que lhes causaria”. Ora, decerto é a jovem, uma pessoa nefasta e má filha por que fez sexo à três? Decerto é esse fato que deve estar no plano primário da definição do caráter de alguém? Afinal, até onde lhe concernia, as fotos deveriam permanecer encerradas no âmbito privado dos que participaram da divertida orgia. Essas manifestações são ridículas, talvez ainda mais ridículas que a atitude da pessoa que, imbuído de pérfida sordidez, disseminou as imagens na rede. Pois essas pessoas, ao saberem do fato, atiraram-se, em sua maioria, à ávida busca pelas fotografias, afim de satisfazerem sua lasciva curiosidade e depois, desprovidos de qualquer envergadura moral, criticarem maldosamente a jovem por ter tido a ousadia que eles não tiveram.
Em posição diametralmente oposta, encontra-se Bruna Surfistinha, a garota de programa que, graças a internet, tornou-se celebridade, assim como a internet fez a desgraça de F.F. Histórias parecidas, mas com assimilação diversa pela opinião pública. A diferença, a meu ver, radica no fato de que Bruna expôs de livre e espontânea vontade sua intimidade para o mundo. Além do mais, Bruna era uma prostituta, e o que se poderia fazer para reduzi-la ainda mais? Afinal, tudo de depreciativo que dela fosse dito não lhe atingiria com a mesma contundência com que F.F. foi atingida. Pelo contrário, Bruna é enaltecida pela “coragem” em expor-se, em fornecer farto material de masturbação para taradinhos e taradinhas cibernéticos. Destarte, falar mal de Bruna seria desperdício de veneno retórico. É claro, acessei o blog da moça. Foi trabalhoso; o tráfego intenso de internautas entulhava a passagem de minha conexão. Tive que esperar minha vez. Enfim, consegui meu intento. O que primeiro me chamou a atenção, pelo que me recordo, foi o assombroso número de visitas amealhadas por seu site, na casa das centenas de milhares. Depois me entreguei à luxúria da leitura de suas peripécias eróticas no labor da prostituição. O que se tinha ali era uma coleção de relatos vulgares sobre seus clientes, com utilização ostensiva de termos chulos e sucessivas atrocidades lingüísticas (ora, para Bruna, certamente a língua limita-se ao prazer erótico que pode proporcionar); muito mais ofensivo, portanto, à “moral e aos bons costumes” que a fotos de F.F., dotadas de inebriante beleza erótica, apesar de serem assaz explícitas. Enfim, tudo aquilo que satisfaz a ânsia vouyerista do gênero humano. Prato cheio para o oportunismo midiático e editorial, que transpôs, em pouquíssimo tempo, o blog para a mídia impressa. Todos ficaram felizes; editora que vendeu às catadupas; público, que adorou a leitura pornográfica; e a própria Bruna, a “corajosa” espertalhona que, com o dinheiro e a fama auferida largou a prostituição e foi viver feliz, lépida e faceira. Até mesmo no Jô Soares a intrépida moça deu o ar da graça, rendendo uma entrevista antológica e sendo aplaudida com entusiasmo pela audiência.
Toda essa história conduz-me à seguinte conclusão: Bruna e F.F. são pessoas como eu e você, cujo caráter tem defeitos e virtudes. Mas nada tem a ver o caráter de alguém com seus hábitos sexuais, desde que eles sejam sadios e lícitos. Bruna é aceita somente por imposição da mídia que a transformou em estrela, ícone de autenticidade. E mostra que, entre homens e mulheres, no que tange à sexualidade, ainda imperam os avantêsmicos vícios do machismo, da hipocrisia e da intolerância.
Cygnus
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